Varal de Poemas e Pensamentos

=========================================================================
=====================================================================
Extraviamos a tal ponto
Que só podemos estar no caminho certo
Fernando Pessoa
===================================
“Somos aquilo que fazemos, mas, principalmente, somos aquilo que fazemos para mudar o que somos.” Eduardo Galeano
====================================
“A vida humana – na verdade, toda a vida – é poesia. Nós a vivemos inconscientemente, dia a dia, fragmento a fragmento, mas, na sua totalidade inviolável, ela nos vive.”
“ Ouse, ouse… ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
”
Lou Andreas-Salomé
O Apanhador de Desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
=======================================================================
Procura da Poesia
“[…]
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
[…]”
Curtindo Procura da Poesia – Carlos Drummond de Andrade no Letras Android: https://letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/460651/
============================================================================
Cavador do Infinito
Com a lâmpada do sonho desce aflito
E sobe aos mundos mais imponderáveis,
Vai abafando as queixas implacáveis,
Da alma o profundo e soluçado grito.
Ânsias, desejos, tudo a fogo, escrito
Sente, em redor, nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
O cavador do trágico Infinito.
E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas distâncias…
Alto levanta a lâmpada do Sonho.
E como seu vulto pálido e tristonho
Cava os abismos das eternas ânsias!
Cruz e Souza
No Caminho com Maiakovski
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakovski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!
Eduardo Alves da Costa
O Brasil que eu quero – Tião Simpatia.
https://www.recantodasletras.com.br/cordel/6394728
O sapato
Em 1919, a revolucionária Rosa Luxemburgo foi assassinada em Berlim.
Ela foi arrebentada a coronhadas de fuzil pelos assassinos, e depois jogada nas águas de um canal.
No caminho, perdeu um sapato.
Alguém recolheu esse sapato, jogado na lama.
Rosa queria um mundo onde a justiça não fosse sacrificada em nome da liberdade, nem a liberdade sacrificada em nome da justiça.
Todos os dias, alguém recolhe essa bandeira.
Jogada no barro como o sapato.
.
Os filhos dos dias, 2012. Eduardo Galeano
Canção Óbvia
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti.
Quem espera na pura espera
vive um tempo de espera vã.
Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e
conversarei com os homens.
Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas;
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;
meus ouvidos ouvirão mais,
meus olhos verão o que antes não viam,
enquanto esperarei por ti.
Não te esperarei na pura espera
porque o meu tempo de espera é um
tempo de quefazer.
Desconfiarei daqueles que virão dizer-me
em voz baixa e precavidos:
É perigoso agir
É perigoso falar
É perigoso andar
É perigoso esperar, na forma em que esperas,
porquê esses recusam a alegria de tua chegada.
Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,
com palavras fáceis, que já chegaste,
porque esses, ao anunciar-te ingenuamente,
antes te denunciam.
Estarei preparando a tua chegada
como o jardineiro prepara o jardim
para a rosa que se abrirá na primavera.
Paulo Freire
========================================================================
OS ANIMAIS TÊM RAZÃO – Antonio Francisco
http://cordeljoseaugusto.blogspot.com/2010/02/os-animais-tem-razao_1374.html
.
.
.
.
A torneira seca
Mas pior
A falta de sede
.
A luz apagada
Mas pior
O gosto do escuro
.
A porta Fechada
Mas pior
A chave por dentro
.
.
.
.
José Paulo Paes
A mão calejada
mas pior
o trabalho sem sentido
A boca calada
mas pior
um calo na língua
” Químicas da própria alma.
Sentimentos são eventos
Extra-dimensionais
Que se manifestam de maneira física
Através da química corporal.”
OS TRABALHADORES
Uma língua de fumo, enorme, bandoleante,
Vai lambendo o infinito – espessa e fatigada…
É a fumaça que sai da chaminé bronzeada
E se condensa em nuvens pelo espaço adiante!
Dir-se-ia uma serpente de inflamada fronte
Que assomando ao covil, ameaçadora e turva,
E subindo… e subindo… assim, de curva em curva,
Fosse enrolar a cauda ao dorso do horizonte!
Mas, não! É a chaminé da fábrica do outeiro
– Esse enorme charuto que a amplidão bafora –
Que vai gerando monstros pelo céu afora,
Cobrindo de fumaça aquele bairro inteiro.
Ouve-se da bigorna o eco na oficina,
O soluço da safra e o grito do martelo…
Como tigres travando ameaçador duelo
As máquinas estrugem no porão da usina!
É o antro onde do ferro o rebotalho impuro
Faz-se estrela brilhante à luz de áureo polvilho!
É o ventre do Trabalho onde gera o filho
Que estende a fronte loura aos braços do Futuro!
Um dia, de uma ideia uma semente verte,
Resvala fecundante e, se agregando ao solo,
Levanta-se… floresce… e ei-la a suster no colo
Os frutos que não tinha – enquanto estava inerte!
Foi o germe da Luz, a flor do Pensamento
Multiplicando a ação da força pequenina:
– De um retalho de bronze uma oficina!
– De uma esteira de cal gerou um monumento!
Trabalhar! Que o trabalho é o sacrifício santo,
Estaleiro de amor que as almas purifica!
Onde o pólen fecunda, o pão se multiplica
E em flores se transforma a lágrima do pranto!
Mas não vale o Trabalho andar a passo largo
Quando a estrada é forrada de injustiça e crimes…
Porque em vez de frutos dúlcidos, sublimes,
Gera bagos mortais e de sabor amargo!
Ide ver quanto herói, quanto guindaste humano
Sob a poeira exaustiva e o calor fatigante,
Os músculos de ferro, o porte gigante,
Misturando o suor o seu pão quotidiano.
Sua força é milagre! A redenção bendita!
O seu rígido braço é a enérgica alavanca
O escopro milagroso, a chave que destranca
O Reino do Progresso onde a Grandeza habita!
Sem os pés desse herói a Evolução não anda!
Sem as mãos desse bravo uma nação nas cresce!
A indústria não produz! A campo não floresce!
O comércio definha! A exportação debanda!
No entanto, vede bem! Esses heróis sem nome,
Malditos animais que ainda escraviza o ouro,
Arrastam – que injustiça! – o carro do tesouro,
Atrelados à dor, à enfermidade, e à fome!
Quanto prédio imponente e de valor suntuário
Erguido para o céu, firmado no infinito,
Indiferente à dor, indiferente ao grito
De desgraça que invade a choça do operário!
De dia é no labor! Exposto ao sol e à chuva!
De noite, na infecção de uma choupana escura
Onde breve uma filha há de tornar-se impura
E uma mulher faminta há de ficar viúva!
Nem mesmo o sono acolhe as pálpebras cansadas!
O leite é a umidez dos fétidos mocambos!
O pão é escasso e duro! As vestes são molambos
E o calçado é paiol das ruas descalçadas!
Ali, a Medicina é estranha um só prodígio!…
Nunca um livro se abrirá em risos de esperança
Para encher de fulgor os olhos da criança,
Apontando-lhe o céu… mostrando-lhe um vestígio!…
Tudo é treva e descrença! O próprio Deus é triste
Ouvindo esse ofegar de corações humanos…
E a Lei – mulher feliz que dorme há tantos anos –
Não acorda pra ver quanta injustiça existe!
Onde está esse amor que os sacerdotes pregam?
Os estão essas leis que o Parlamento imprime?
O Código não pode abrir o seio ao Crime,
Infamando o pudor que os Tribunais segregam!
Vede bem da fornalha a rubra labareda!…
Olhai das chaminés o fumo que desliza!…
Pois é o sangue… É o suor do pobre que agoniza
Enquanto a lei cochila entre os divãs de seda!
Que é feito desse herói? Ninguém lhe sabe a origem!
O Poder nunca entrou nas palhas do seu teto…
Somente a esposa enferma, o filho analfabeto,
E lá nos cabarés, – a filha… que era virgem!
Existe essa legião de mártires descrentes
Em cada fim de rua, em cada bairro pobre!
É desgraça demais que num país tão nobre
Que teve um Bonifácio e deu um Tiradentes
Será preciso o sangue borbotar na lança?
E o cadáver do povo apodrecer nas ruas?
Tu não vestes, ó Lei, as próprias filhas tuas?
Morre, pois, mãe cruel, debaixo da vingança!
Mas eu vejo que breve há de chegar a hora
Em que a voz do infeliz é livre – na garganta!
Porque sei que esse Deus que nos palácios canta
É o mesmo Deus que pelos bairros chora!
Quanto riso aqui dentro! E lá fora, os brados!
Quantos leitos de seda! E quantos pés descalçados!
Já que os homens não vêem esses decretos falsos,
Rasga, cristo, o teu manto! Abriga os desgraçados!…
Rogaciano Leite
(Poema gravado na Praça Vermelha, em Moscou, onde o poeta esteve em 1968)
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos
Fecundai o Mistério destes versos,
Com a chama ideal de todos os mistérios.
Fragmentos do poema Antífona de Cruz e Souza
Na mesa, quando em meio à noite lenta
Escrevo antes que o sono me adormeça,
Tenho o negro tinteiro que a cabeça
De um corvo representa.
A contemplá-lo mudamente fico
E numa dor atroz mais me concentro:
E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,
Meto-lhe a pena pela goela a dentro.
E solitariamente, pouco a pouco,
Do bojo tiro a pena, rasa em tinta…
E a minha mão, que treme toda, pinta
Versos próprios de um louco.
E o aberto olhar vidrado da funesta
Ave que representa o meu tinteiro,
Vai-me seguindo a mão, que corre lesta,
Toda a tremer pelo papel inteiro.
Dizem-me todos que atirar eu devo
Trevas em fora este agourento corvo,
Pois dele sangra o desespero torvo
Destes versos que escrevo.
Alphonsus de Guimaraens – in Kiriale (1891 – 1895)
Tudo! Vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte…
Fragmentos do poema Antífona de Cruz e Souza
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…
Olavo Bilac
O MORCEGO
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus ! E este morcego ! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede !
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto ?!
A Consciência Humana é este morcego !
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto !
Augusto dos Anjos
Quando em teus braços, meu amor, te beijo,
se me torno, de súbito, tristonho,
é porque às vezes, com temor, prevejo
que esta alegria pode ser um sonho…
Martins Fontes
Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Augusto do Anjos
Dedos denunciadores escreviam
Na lúgubre extensão da rua preta
Todo o destino negro do planeta,
Onde minhas moléculas sofriam.
Fragmento de Noites de um Visionário de Augusto dos Anjos
E que a tua vulva veludosa, afinal !!
vermelha, acesa e fuzilante como forja em brasa,
santuário sombrio das transfigurações,
câmara mágica das metamorfoses,
crisol original das genitais impurezas,
fonte tenebrosa dos êxtases
dos tristes, espasmódicos suspiros
e do tormento delicioso da vida;
que a tua vulva, afinal,
vibrasse vitoriosamente o ar
com as trompas marciais e triunfantes
da apoteose soberana da carne!”
Cruz e Souza
A essência do mal me parece a criatividade e/ou a inteligência, para manipular as pessoas em direção à banalidade e à indiferença. A banalidade é o princípio da morte.
Grossman
O homem, o tempo e o seu motivo.
Grito porque tenho nos olhos
Um gesto prisioneiro
E a voz medrosa.
Grito porque meus braços
Não vão além de meus ecos
E tenho medo da dor física.
Canto de voz alta
Porque meu canto tem expressão
De grito preciso e ocasional
Ou até mesmo do sossego
Posto detrás da porta
Por medo ou timidez.
Canto de voz alta
Porque tenho no canto sólidas correntes
Que chicoteiam-me a garganta.
Grito porque a opressão da noite
Nega-se o sol, faz-me estátua
Mas não silencio como as pedras.
Pádua Lima
Este tipo de luta dá-nos a oportunidade de nos convertermos em revolucionários, o escalão mais alto da espécie humana, mas também, nos permite graduar-nos como homens; os que não podem alcançar nenhum desses dois estágios devem dizê-lo e deixar a luta.
Fragmento do discurso de Che aos guerrilheiros na Bolívia
A blusa amarela
Do veludo da minha voz
Vou mandar fazer minhas calças pretas
De três metros de meio dia,
Uma blusa amarela
……………………………………..
E vocês, mulheres,
Que amam a minha carcaça,
E você menina,
Que não quer ver em mim
Senão um irmão
Atirem os seus sorrisos ao poeta,
Que eu vou costurá-los,
Como se fossem flores
Na minha blusa amarela!
Vladimir Maiakóvski
A linguagem hermética nem sempre é o preço inevitável da profundidade. Em alguns casos pode estar simplesmente escondendo a incapacidade de comunicação, elevando-a à categoria de virtude intelectual. Suspeito que o fastio serve, dessa forma, para bendizer a ordem estabelecida: confirma que o conhecimento é um privilégio das elites.
Fragmento do livro As veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano
Como explicar tudo isso? Como suportar tudo isso, se a alma do homem não estivesse animada por um impulso imenso e sobre-humano? Por força que se tem de inventar palavras superponíveis à inevitável, à inata covardia da carne, desta carne e desta fina pele humana, que qualquer agulha enferrujada pode atravessar sem o menor esforço.
Larissa Reissner – Escritora Polonesa
Alguém escreve para tratar de responder as perguntas que lhe zumbem na cabeça – moscas tenazes que perturbam o sono; e o que alguém escreve pode adquirir sentido coletivo quando, de alguma maneira, coincide com a necessidade social de resposta.
Eduardo Galeano
… basta ao homem acender uma pequena luz nas trevas para que a escuridão se dissipe e o contorno das coisas se mostre por si mesmo.
… mesmo em pleno dia, precisamos às vezes da luz humilde de uma lanterna, como demonstrou Diógenes, para enxergarmos pequenas coisas ocultas.
O homem em geral, é um alienado na precipitação. Ele se entrega ao mundo e se perde na mundanidade. A alienação mundana o afasta da serenidade, pois o tumulto do mundo, a instabilidade das coisas, a efemeridade e a fragilidade da condição humana, tão acentuadas no pensamento existencial, geram a inquietação, o que leva à angústia e ao desespero. O fogo de Heráclito – que se assemelha ao fogo dos sentidos, de Buda – consome o homem na pressa da existência. A busca da serenidade é a única forma de escape aos tormentos existenciais da alienação.
Fragmento do livro O Ser e a Serenidade de José Herculano Pires
Mas que sou eu, portanto?
Uma coisa que pensa.
Que é uma coisa que pensa?
É uma coisa que duvida,
Que nega, que quer, que não quer,
Que imagina também e que sente.
René Descartes
Estamos sós e sem desculpas
É o que traduzirei dizendo:
O homem está condenado a ser livre.
Condenado, porque não se criou a si próprio;
E no entanto livre,
Porque uma vez lançado ao mundo,
É responsável por tudo quanto fizer.
Jean Paul Sartre
A obrigação do artista é não mentir: essa é a sua participação. Há incompatibilidade psicológica entre o escritor e o político, são duas ordens de atividades inteiramente diferentes… no entanto, desde o momento em que se usa a palavra, se cria uma responsabilidade. Assim, é preciso que sejam verdadeiras.
João Cabral de Melo Neto
Maldito seja o que teme ver-se só, ou acompanhado de humildes, quando tem uma idéia nobre a defender, e põe-se, com os de conta bancária e botina de verniz, do lado dos que o sufocam ou abandonam.
Martí
Como se explica que eu nunca tenha visto, um céu tão alto? Como me sinto feliz, de tê-lo finalmente descoberto!
Sim, tudo é fatuidade, perfídia, salvo o céu infinito! Nada existe além dele. Mas ele próprio não existe. Nada existe além da calma e do repouso. Deus seja louvado!
Fala de um dos personagens de Tolstoi ao cair no fragor da batalha.
Em cada refeição que fazíamos juntos, a liberdade era convidada a sentar-se conosco. A cadeira permanece vazia, mas o lugar foi marcado.
Prisioneiro dentro de um campo de concentração fascista, o poeta René Char, mais uma vez faz um brinde a vida.
Buscai os gordos nas cascas de suas casas
E tocai a alegria no tambor de seus ventres!
Agarrai os surdos e os tontos das pernas
E soprai no ouvido deles
Como se sopra no nariz da flauta.
Fragmentos de Maiakovski
A minha angústia aumenta
Inquieta e sem razão
Como uma lágrima
Sobre o focinho de um cão que chora.
Fragmentos de Maiakovski
Eu afirmei por todos os lugares
Que Deus não existia,
E das tórridas profundezas
Deus fez com que ela aparecesse,
Ela, diante de quem as montanhas tremem,
E ele ordenou:
Tu amarás!
Fragmentos de Maiakovski
Eu ficava chateado porque eu não tinha sapatos, olhei pra trás e vi alguém que não tinha os pés.
Rui Barbosa
SE VOCÊ ME ABANDONAR
Se você não me quiser
tomo licor de pimenta
bebo leite de jumenta
num lhe dou mais cafuné
desembrabeço a maré
pra ver a praia endoidar
eu faço a cobra fumar
se você fugir de mim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.
Se você não me quiser
bebo chumbo derretido
e nunca mais lhe convido
para ser minha mulher
num tem mais lua de mé
nem faço o sino tocar
nos lugares que eu pisar
num pode nascer capim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.
Se você não me quiser
arranco o rabo do peba
a galinha se amanceba
com outro bicho qualquer
não dá um adeus sequer
com vergonha do preá
e na hora de acordar
fica tocando clarim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.
Se você não me quiser
não é bom que se afoite
escovo a boca da noite
arranco a torre da sé
depois digo porque é
qui a muda não quer falar
o sol pára de brilhar
seu eu estiver sozim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.
Se você não me quiser
eu dou um susto na morte
talvez ela não suporte
se eu lhe der um cangapé
e na hora que eu estiver
danado pra namorar
digo a ela pra estourar
o meu amor com estupim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar
Se você não me quiser
quebro a tampa do pinico
mas sozim não sei se fico
feito carro sem chofer
me dane se eu não fizer
a minha égua rinchar
e depois que me olhar
eu jogo ela pro vizim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.
Se você não me quiser
eu ensino um burro a ler
e peço a ele pra dizer
que você ainda me quer
mas se ela me disser
que você não quer voltar
eu digo a ele pra falar
nem que seja no latim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.
Se você não me quiser
eu fico brabo outra vez
e monto na gata pedrez
se outra igual não houver
se ela um chute me der
não ligo, tô com azar
mas se ela não concordar
qui eu sô bem bonitim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.
Fonte: “Nordeste Caboclo – Poesia Matuta”, Carneiro Portela, Fortaleza, 2004
NESTE BRASIL DE NOVELA, FUTEBOL E CARNAVAL
Veja a coisa como anda
Nesta Pátria idolatrada
Sua honra está manchada
Apesar da propaganda
Está entrando na ciranda
Da mídia fenomenal
E todo povo em geral
Com isto se dismantela
Neste Brasil de novela
Futebol e carnaval.
É tanta vagabundagem
tanta farra e anarquia
confundem a democracia
com a própria “fuleragem”
curtição e vadiagem
bacana com bacanal
quem anima é animal
quem tem pêlo não apela
neste brasil de novela
futebol e carnaval.
Brasilzim das mordomias
dos ladrões engravatados
de tanto reais jogados
nos cofres das loterias
o Brasil dos nossos dias
está enfermo, passa mal
fechando tanto hospital
não cura tanta mazela
neste brasil de novela
futebol e carnaval.
O Brasil vive jogando
sua cultura na lama
a novela é o programa
pra gente besta pirando
carnaval de vez em quando
para o povo é triunfal
no mundo não tem rival
chega dói na espinhela
neste brasil de novela
futebol e carnaval…
Carneiro Portela
http://verdesmares.globo.com/tvdiario//noticia.asp?codigo=197688&modulo=511
O Gênio da Multidão
Existe traição suficiente, rancor violento e absurdo
No Homem comum para abastecer qualquer exército em qualquer dia
E o melhor do homicídio são aqueles que pregam contra
E o melhor do ódio são aqueles que pregam o amor
E o melhor da guerra finalmente são aqueles que pregam a paz
Aqueles que pregam Deus, precisam de Deus
Aqueles que pregam paz, não tem paz
Aqueles que pregam paz, não tem amor
Cuidado com os pregadores
Cuidado com os sábios
Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros
Cuidado com aqueles que, se orgulham ou
Detestam a pobreza
Cuidado com aqueles apressados em louvar
Pois precisam de louvores em troca
Cuidado com aqueles apressados na censura
Eles tem medo do que não conhecem
Cuidado com aqueles que buscam multidões
Para não ficarem sozinhos
Cuidado com o homem comum e a mulher comum
Cuidado com o seu amor, seu amor é comum
Busca o comum
Mas existe genialidade no rancor deles
Existe genialidade no rancor deles suficiente
Para matar você e todo mundo
Que não está desejando a solidão
Que não está entendendo a solidão
Eles vão tentar destruir qualquer coisa
Que seja diferente deles
Sem estar aptos a criar arte
Eles não vão entender arte
Eles vão considerar sus falhas
Como criadores
Apenas como uma falha do mundo
Sem estar aptos a amar completamente
Eles vão crer que o seu amor é incompleto
E então eles vão te odiar
E o seu ódio será perfeito
Como um diamante reluzente
Como uma faca
Como uma montanha
Como um tigre
Como um veneno
Sua arte mais pura
Charles Bukowski
Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar “.
Vitor Hugo
Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário.
Ele os cumprimenta e diz:
– Bom dia, meninos! Como está gostosa a água?!
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
– Água? Que água!?
O VINHO
Na Itália, numa aldeia das montanhas, os camponeses durante a Idade Média, tinham o hábito de anualmente fazer da colheita uma festa. Esta festa era esperada com muita ansiedade por todos, comemorada com tudo o que tinham direito na época e comentada ao longo do ano.
Para essa festa, todo morador da aldeia contribuí¬a com uma garrafa do melhor vinho de sua fabricação onde cada um despejava num grande barril na praça central da aldeia. O ponto alto da comemoração era a abertura do barril, solenidade que atraí¬a gente de todos os lugares que vinham degustar o famoso vinho, resultado da somatória de muitas garrafas de vinho selecionado.
Certa vez, um dos moradores que há muitos anos participava da festa pensou:
– “Por que vou levar uma garrafa do meu melhor vinho? Vou levar uma garrafa de água, já que no meio de tanto vinho o meu não fará falta…”
Quando chegou a sua vez de despejar o seu “vinho”, fez de forma disfarçada para que os outros não percebessem.
No momento culminante da festa, a abertura do barril, todos estava lá com suas canecas prontos para saborear o famoso vinho. Qual não foi a surpresa, na abertura da grande torneira, dela só saia água… Eram litros e litros de pura água… Todos os moradores tinham pensado a mesma coisa: “Por que vou levar uma garrafa do meu melhor vinho, se no meio de tanto não fará falta?”.
Muitas vezes somos tentados a pensar dessa forma. É preciso fazermos a nossa parte, isto não tem importância e talvez nem seja notado, pois há tantas outras pessoas ao nosso redor. O que aconteceria se no mundo todos pensassem que sua parte não fará falta?
Por isso por menor que seja a nossa atitude ela é essencial quando nos colocamos a disposição para ajudar alguém. Muitas vezes depende apenas de um gesto muito simples: um olhar, um sorriso ou uma mão estendida. Não vamos esconder o “nosso melhor vinho”, e sim dar o que temos de mais precioso para edificação do irmão.
Às cinco horas da tarde – Federico García Lorca
A CAPTURA E A MORTE
Às cinco da tarde.
Eram exatamente cinco da tarde.
Um garoto trouxe uma folha em branco às cinco da tarde.
Uma cesta de lima aprontada
às cinco da tarde.
O resto foi a morte e só a morte
às cinco da tarde.
O ventania eriçou a relva
às cinco da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco da tarde.
Há uma luta entre uma pomba e um leopardo
às cinco da tarde.
E um resto de carne retorcida
às cinco da tarde.
As cordas do baixo soaram
às cinco da tarde.
As campanas de arsênico e a fumaça
às cinco da tarde.
Pelas ruas grupos marcham em silêncio
às cinco da tarde.
O touro é um coração que pulso
às cinco da tarde.
Quando um suor de neve cai
às cinco da tarde,
E de vermelho se cobre toda a praça
às cinco da tarde,
a morte veio lamber-lhe a ferida
às cinco da tarde.
Às cinco da tarde.
Exatamente as cinco da tarde.
Um caixão sobre rodas foi sua cama
às cinco da tarde.
Ouve-se o som de ossos e flautas
às cinco da tarde.
E agora o touro urra de dentro de sua cabeça
às cinco da tarde.
O quarto se irisava de agonia
às cinco da tarde.
De longe veio a gangrena
às cinco da tarde.
A flor-de-elis nas abóbadas verdes
às cinco da tarde.
As feridas queimavam como o sol
às cinco da tarde,
A multidão quebrava as janelas
às cinco da tarde.
Foi uma cinco da tarde fatal!
Eram cinco em todos os relógios!
Eram cinco na sombra da tarde!
Tradução: Oscar Mendes
MANUEL SÁ CORREIA*
“Me porté como quein soy.
Como un gitano legítimo”
García Lorca
Às cinco da tarde Bernarda Alba levanta a sua voz e dança com “Yerma”.
Às cinco da tarde começam “As Bodas de Sangue” entre um Inácio Sanchez e um touro. Às cinco da tarde alguém desfolha um “Romanceiro Cigano” e encontra um flamenco enraivecido contra a guarda civil. Às cinco da tarde Granada parece morta pela morte contra a vida. Um general grita “Viva la Muerte” e um poeta vai na sua “Barraca” vitoriar o corpo sempre juvenil de quem se dá aos outros.
Às cinco da tarde Andaluzia é toda a Espanha na voz dum poeta que desafia a eternidade. Às cinco da tarde Nova Yorque passeia-se pelas ruas espanholas de braço dado com Lorca. Às cinco da tarde um poeta diz que “a poesia se levante do livro e se torne humana”. Às cinco da tarde, no meio duma ferida, duma cratera, duma guerra um actor recita-se e ouvem-se limões, corintos, toureiros e macarenos contra o ódio. Federico de seu nome, dá nome à poesia do teatro. Pode ser essa “Mariana Pineda” com as suas lutas pela liberdade a ecoar desde o século XIX, desde sempre, até agora, até amanhã. Pode ser “A Sapateira Prodigiosa” e o prodígio da maravilha que se liberta mesmo quando se vive apagado.
Por isso às cinco da tarde um animal está quase à morte, um toureiro sangra do peito, um actor perde a voz, uma bala procura o centro mais querido do sonho.
Às cinco da tarde se morre em Espanha e a capital da ternura mais sensual já não é Madrid, mas sim Granada gangrenada no corpo dum poeta. Esse que sabia que “o povo ouviria com alegria e simplicidade expressões e vocábulos que nascem da terra e servirão de limpeza numa época em que tantos erros e maldades tão fundo penetram”.
Não importa a hora, ou quem sabe se cinco da tarde não são sempre cinco laranjeiras adiadas. Por isso às cinco da tarde um poeta foi fuzilado. Seu nome Federico, sua voz García, seu combate Lorca. De Espanha, da Andaluzia, do mundo inteiro.
Podem bater as pancadas de Molière que o poeta e a sua lua vão recomeçar às cinco da tarde.
* Equiparado a Assistente do 1º Triénio da ESEV
http://www.ipv.pt/millenium/pers12_cinco.htm
Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.
De sol quando acorda.
De flor quando ri.
Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede
que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda.
Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça.
Lambuzando o queixo de sorvete.
Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher.
O tempo é outro.
E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus.
De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul.
Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis.
Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo.
Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso.
Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que
a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas
que conseguimos acender na Terra.
Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza.
Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria.
Recebendo um buquê de carinhos.
Abraçando um filhote de urso panda.
Tocando com os olhos os olhos da paz.
Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra
no nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa.
Do brinquedo que a gente não largava.
Do acalanto que o silêncio canta.
De passeio no jardim.
Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume
que vem de dentro e que a atração que realmente nos move
não passa só pelo corpo.
Corre em outras veias.
Pulsa em outro lugar.
Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está conosco,
juntinho ao nosso lado.
E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Tem gente como você que nem percebe como tem a alma Perfumada!
E que esse perfume é dom de Deus.
“Carlos Drummond de Andrade”
A torneira seca
.
.
Mas pior
.
.
A falta de sede
.
.
A luz apagada
.
.
Mas pior
.
.
O gosto do escuro
.
.
A porta Fechada
.
.
Mas pior
.
.
A chave por dentro
.
.
José Paulo Paes
No Caminho, com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!
ELOGIO DO APRENDIZADO
.
.
Aprenda o mais simples!
Para aqueles
Cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!
.
.
Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Frequente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro:é uma arma.
Você tem que assumir o comando.
.
.
Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada ítem
Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando.
.
.
Bertolt Brechet, Elogio do Aprendizado, in Poemas 1913 – 1956, São Paulo, Brasiliense, 1986, p. 121
Ai! Se sêsse!…
Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!
*Poeta: Zé da Luz
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Pessoa
Táctica y estrategia
Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos.
Mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible.
Mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos.
Mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos.
Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple.
Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.
Mário Benedetti
Ismália
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Alphonsus de Guimaraens
[…] Varal de Poemas e Pensamentos […]
A CASA
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe- até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.
José Paulo Paes
Antífona
Ó formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!…
Ó Formas vagas, fluídas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras…
Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas…
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dotências de lírios e de rosas…
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume…
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Requiem do Sol que a Dor da Luz resume…
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes…
Infinitos espíritos dispersos,
Inefãveis, edênicos, aéreos
Fecundai o Mistério destes versos,
Com a chama ideal de todos os mistérios.
Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente…
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.
Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas…
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas corrientezas…
Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos…
Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantâlicos, doentios…
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios…
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte…
João da Cruz e Sousa
Palavra Acesa
Se o que nos consome fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como que sugere a tinta
Para quem pinta
Como que sugere a cama
Para quem ama
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada
Oh! pra ti amada
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada
Oh, pra ti amada
Pra ti amada
Compositor: José Chagas; Fernando Filizola
Conta a Lenda que Dormia
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”
[…] Detalhe… poder econômico, poder político e poder público são criações do gênio humano, ou seja, a única coisa que existe de fato nesta imagem é o tú, que tudo inventa com a sua criatividade, e chega a acreditar na própria criação, a ponto de deixar aprisionar-se dentro dela. […]
Quem tem olhos pra ver o tempo
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina
Sem raiva nem rancor
O tempo riscou meu rosto com calma
Eu parei de lutar contra o tempo
Ando exercendo instante
(acho que ganhei presença)
Acho que a vida anda passando a mão em mim
A vida anda passando a mão em mim
Acho que a vida anda passando
A vida anda passando
Acho que a vida anda
A vida anda em mim
Acho que há vida em mim
A vida em mim anda passando
Acho que a vida anda passando a mão em mim
E por falar em sexo
Quem anda me comendo é o tempo
Na verdade faz tempo
Mas eu escondia
Porque ele me pegava à força
E por trás.
Um dia resolvi encará-lo de frente
E disse: Tempo,
Se você tem que me comer
Que seja com o meu consentimento
E me olhando nos olhos
Acho que ganhei o tempo
De lá pra cá
Ele tem sido bom comigo
Dizem que ando até remoçando.
Viviane Mosé
“A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua, toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!” Rubem Alves
“Não me olhes para os olhos com receios,
De que no fundo, vejam o que eu vejo.
E vejas o teu rosto claramente,
E o ames e o queiras como eu.” Demon
PAULO FREIRE
No cheiro da terra, a inspiração
Graveto na mão
Lousa no chão
Palavras, rabiscos, desenhos, figuras,
anseios, procuras, leituras, leituras…
Um mundo a ser transformado
Um ideal a ser sonhado
Uma utopia a ser alcançada
Um menino, um moleque, um aprendiz,
mais nada…
Homem que o tempo moldou,
que a vida esculpiu,
que o amor fermentou,
que a paixão consentiu
Homem-menino, que rabisca o mundo
deixando suas marcas
Que tem na esperança sua maior aliada,
companheira de sonhos…
Menino-homem, que pensa o pensar
como quem tece,
como quem fia,
como quem borda…
Guerreiro, sereno,
irado, gentil,
doutor, aprendiz
Cidadão planetário
Na fala a doçura,
No olhar, o afeto, a ternura.
Nas mãos, o fazer
Ser que sabe ser
Homem-mulher-criança…são todos,
são muitos…são PAULO!
SONIA COUTO
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça para baixo, pendurado numa especie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inaccessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma…
Passo sem explicações…
Se fôr preciso metto dentro as portas…
Sim – eu franzino e civilizado, metto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilisado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que ha de passar porforça, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Mettam-me em gavetas essas emoções!
D’aqui pra fóra, politicos, literatos,
Comerciantes pacatos, policia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espirito que dá a vida.
O espirito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fóra até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é comtigo, deixa-me ir…
É commigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que foça através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
O amor, esse sufoco,
agora a pouco era muito,
agora, apenas um sopro.
Ah, troço de louco,
corações trocando rosas
e socos
Paulo Leminski