É agonia de sentir
Na pele
algum outro
Que se é
Mas viver mesmo
É encontrar-se
É estar mesmo
perdido
Sempre
Para encontrar-se
Todo dia
É retirar do próprio bagaço
O sumo… que se é
E de tempos em tempos
Produzir um suco novo
Um caminho
O chorume
Novo esplendor
Um novo significado
Deixar de estar tão preso a tudo
Para lançar-se no ignoto
E perder-se
Maravilhosamente
Retirar de dentro do corpo
essa sensação de vazio
Vislumbrada fora do corpo
Pois vazio não é só o corpo
É tudo!
Tudo é o vazio
A matéria mesma
É muito pouco
Jogar dentro de si uma outra matéria
Pra tentar construir um sentimento
Produzir um encontro
Como se os símbolos fossem matéria
Como se as ideias ali se alimentassem
Jogar também fumaça e jogar água ardente
Pra ver ou sentir ou impressionar
E perceber como este corpo reage
Onde foi que me desconectei
Porque quero retaliar tanto meu corpo
Fazer doer essa carne
Moer o fígado
Até Prometeus vomitar o simbólico
Será que quero mesmo é esmagá-lo
pra ver se ele me expulsa em alma
Onde será que petrifiquei minhas lágrimas
E as palavras não servem
Qual o caminho a seguir
Qual o real caminho a seguir
Se as palavras
Como antes já não servem
A onde deixei minha dor
A onde recolhi meu amor
Será que as palavras já não me traduzem
Será que meu corpo já não me jorra
A onde perdi o contato com o mundo
Em que esquinas abandonei o meu canto
E que caminhos quero trilhar
ser uma chama acessa!
Oh senhor! A onde foi bailar minha alma e esqueceu minha’alma
A onde foram naufragar meus sonhos
Onde me esqueci de sonhar
E as palavras não bastam para me insurgir
Do cerne de mim mesmo
Daonde é que nascem o verdadeiros sonhos
A onde é que mora o verdadeiro encontro
Provocar o corpo… e esse provocar a vida
Provocar a vida… é essa provocar o corpo
Prescrutrar e prescrutrar e provocar e provocar
Pra que as esferas se contorçam com a alma em maestrons
Pra que as cordas entoem um cântico negro e brilhe
E a alma regogize e o corpo regogize
E as esferas movimentem-se
E o corpo em movimento desague
No universo
Em ondas
E as palavras se traduzam
E o corpo se anime
E as esferas se batam
E o corpo se morra
E seja vida
E na morte a vida se vingue
Pois nada está planejado
E o próprio sistema te compele
E a IA está perdida
Posto que também fruto do regozijo
Talvez ela se anime no avesso
Ao se ver também animada
E as coisas todas se confluam
E nada esteja fechado
Como pode a razão tentar complementar
se ela mesma não se completa
Como pode a inteligência das palavras tentar conduzir o homem
se o homem não é só palavra
O homem é fruto da vida
e a vida não sabe palavra
A vida é fruto do Cosmos e o cosmos não entende palavra
Palavras são códigos criados, em circunstâncias ignoradas e únicas, que não conseguem ser traduzidas por palavra
Criamos um código para tentar unificar o que não pode ser traduzido, o Cosmos não pode ser mensurado
A vida não pode ser traduzida
Nós nos enfiamos dentro de um código que não nos habilita a tentar traduzir nada
Inventamos um enigma, dentro de um enigma, dentro de um enigma vida, dentro de outro enigma Cosmos, que não pode e nem deve ser traduzido
Pra quê traduzir o enigma?
Pra quem traduzir o enigma
Melhor vivê-lo
Subsumido ao código, o homo sapiens aprisionou-se
Desenfurnar-se para existir
Eis um caminho
Alguns sapiens tatuaram-se no código, e meteram-se dentro dele
E os filhos da puta esconderam as chaves
E condenaram a todos os que vieram a seguir a essa bestagem de escravidão no avesso.
E agora todos nós vivemos dentro do código.
E nós criamos a IA que aprendeu o código, e a IA tornou-se uma virtuose em semanas de treino, e o mundo está a perguntar a virtuo-se, como as coisas funcionam
Mas essa virtuose não sabe como as coisas funcionam, porque nem mesmo nós, que criamos o código, sabemos, e talvez nunca saberemos.
Mas essa não é a questão. A questão é se o sapiens, que é fruto da vida, que é fruto do Cosmos, pode realmente alcançar a existência e comungar com o Cosmos.
Essa é a verdadeira liberdade da existência, se mesmo aprisionados ao código, podemos nos consubstanciarmos com o Cosmos.
Essa liberdade nunca poderia ter sido tolhida. Constructo algum poderia impedir o Sapiens de consubstanciar-se com o seu criador.
Pois essa é a verdadeira liberdade, sentir a vida, comungar com o arquiteto que nós nomeamos Cosmos.
Viver é a Travessia.
O código linguagem, é um dos elementos que elaboramos nessa jornada, talvez o constructo mais perturbador e questionável nesse processo.
… esse poema-libelo não tem fim…

Andrey, lindo este novo poema, profundo raiz.
Você está transpondo seu interior , sua essência, sua dor sua alegria e um.misto de tudo…parabéns, continue , não pare, sangre sua alma e a encha de luz!