queria
escrever fosse
a lótus do meu lodo
nada mais
sei
não é pouco
sim
fosse bela
a flôr desse esforço
que só exala o cheiro ruím do fosso
feito churume ácido em gás
podia
então
ser árvore fincada
sobre um pedaço firme
duma rocha elevada
à beira dos abismos que há em mim
queria fossem pétalas/palavras
de magestosas rosas bem cuidadas
aquí, d’algum recôndito jardim
áh, fossem escritos
vindos uvas
de cepas centenárias portuguesas
restantes nesse sangue que me queima a face
enquanto choro
e sonho
e insisto
sem poder pisá-las
porque não nascem
não nascem
não nascem
queria mesmo
nessa busca impulsiva e tosca
se não achá-las palavras
achar-me n’algum canto
enquanto as busco
pra não deixar os outros
que amo tanto
tão sem algo de bom vindo de mim
Eninho – Vitória, 06Jun2008