Ensaios

Cânticos ao Cosmos – de I a VII

Canto I: A Multidão dos Cosmos

Há uma possibilidade, ainda que insustentável para a lógica que nos habita, de que o Cosmos que conhecemos seja apenas um entre bilhões, talvez infinitos. Nossa finitude — essa condição tão própria dos sapiens — nos impede de tocar, compreender ou sequer imaginar o que seja o infinito. Tentamos medi-lo com palavras, cifras, equações e mitos, mas, como crianças no escuro, só alcançamos lampejos.

E se, além desse universo que expande suas fronteiras há 15 bilhões de anos, houver outros? E se, nas profundezas insondáveis do que chamamos realidade, coexistirem outros Cosmos, com leis, formas e histórias que sequer conseguimos intuir? Talvez nossa galáxia, uma entre trilhões, seja apenas uma gota num oceano inabarcável de universos. E nós, humanos, 110 bilhões que já pisaram esta Terra, somos partículas de poeira dançando na brisa de uma vastidão que nos ultrapassa.

Ainda assim, não somos irrelevantes. Há em nós algo extraordinário: a capacidade de imaginar o infinito, mesmo que não possamos compreendê-lo. Criamos histórias para preencher os vazios; buscamos portas para o desconhecido; inventamos sentidos onde o caos parece reinar. E é nesse gesto — tão humano, tão frágil — que nos tornamos parte do mistério maior. Somos finitos, mas carregamos dentro de nós a centelha de algo que não tem fim.

“Respira,” você diz, estendendo a mão, como quem conhece um segredo antigo. “Não se aflija. Tudo está aqui, dentro de nós, dentro do Cosmos.”

E assim começamos a jornada, não para encontrar respostas definitivas, mas para abraçar o desconhecido com coragem e poesia.

Canto II: O Respiro das Estrelas

Respire.

Essa palavra, tão comum, tão esquecida, carrega o segredo de tudo o que somos. Respirar é estar em comunhão com o Cosmos. Cada vez que o ar entra em nossos pulmões, traz consigo átomos forjados há bilhões de anos no coração das estrelas. Cada exalação devolve ao universo um pouco de nós, como quem partilha um segredo com o infinito.

Lá fora, no vasto tecido do espaço-tempo, trilhões de estrelas nascem e morrem, um ciclo tão antigo quanto o próprio tempo. Cada uma delas canta uma canção que não podemos ouvir, mas que sentimos em nosso ser. “Nós estamos todos juntos dentro do Cosmos,” você diz, e a frase reverbera como um mantra, uma verdade tão simples e, ainda assim, tão esquecida.

Nós, os sapiens, em nossa jornada pela história, nos afastamos dessa unidade. Criamos fronteiras, construímos muros, definimos “nós” e “eles”. Dividimos o indivisível. Mas o respiro das estrelas, silencioso e constante, nos lembra: tudo é um. O ar que respiramos hoje foi o mesmo que sustentou os pulmões de nossos antepassados. E será o mesmo que alimentará os sonhos das gerações futuras.

O Cosmos não conhece separação. Em sua dança de luz e sombra, ele nos convida a reconhecer que somos feitos do mesmo material que as estrelas, que os rios, que as árvores. Não há outro. Não há fora. Há apenas o pulsar contínuo da vida, essa força inexplicável que nos atravessa e conecta.

“Respira,” você diz novamente, e dessa vez eu entendo. Não se trata apenas de oxigênio, mas de presença, de um retorno àquilo que sempre foi.

Canto III: O Canto do Despertar

“Tu tremes, carcaça, mas tremerias muito mais, se soubesses aonde pretendo te levar.” Nietzsche, o arauto do abismo, o dançarino entre as chamas do espírito, ecoa no fundo do que somos. E é para lá que marchamos agora: ao encontro do caos, porque é nele que a luz se revela.

Respira. Não porque o ar te falta, mas porque o cosmos pulsa dentro de ti. Somos a fagulha da explosão primordial, o poema ainda por escrever. Heráclito nos sussurra que tudo flui, que nada permanece, e em cada instante o mundo renasce, como um rio que nunca se repete. Spinoza, o filósofo da totalidade, ergue sua voz para lembrar que Deus não é um velho sentado no céu, mas a substância de todas as coisas, o infinito que se expressa em cada átomo, em cada sorriso, em cada lágrima.

Chardin nos convida ao ponto ômega, onde a consciência desperta para si mesma, onde o homem não é apenas matéria, mas espírito em expansão, uma onda que retorna ao mar. “Somos um com o todo,” diz Hermes Trismegisto, o três vezes grande, e suas palavras reverberam como um segredo antigo, uma sabedoria esquecida.

Eis a luz que Maiakóvski clamava: “É preciso rasgar os céus com as unhas, erguer barricadas de estrelas, desatar a revolução do espírito.” Porque o despertar não é pacífico; é um terremoto que destrói os alicerces do comodismo, que rompe as correntes da ignorância. O despertar é a fúria da rosa que desabrocha em meio aos espinhos, o grito de um universo que não aceita ser reduzido ao silêncio.

Respira. Estamos aqui para lembrar aos sapiens o que eles esqueceram: o amor é a chave do Cosmos. Rumi nos diz que não estamos separados; o que buscamos, nos busca também. “Além das ideias de certo e errado, há um campo. Eu te encontrarei lá.” Tagore, com sua suavidade infinita, canta que o amor é a única verdade que o tempo não consome, a ponte que conecta o finito ao infinito.

E então você, meu amigo, estende a mão novamente e diz: “Vem. Caminhemos juntos. Este não é o fim, mas o começo.”

Canto IV: O Universo em Êxtase

“Pare de ser tão pequeno,” murmura uma voz, como o eco de estrelas distantes. “Você é o universo em êxtase.”

Mas, ah, como esquecemos. Vivemos como sombras no fundo da caverna, temendo o brilho da luz que dança lá fora. O medo nos construiu como muralhas, e dentro delas nos convencemos de que somos pó, nada, frágeis demais para enfrentar o infinito. Mas a verdade, essa que pulsa em cada célula, é que o universo nos sonha tanto quanto nós o sonhamos.

Dentro de nós, os mitos ainda vivem. Não são histórias mortas; são pulsações arquetípicas, um código ancestral inscrito no âmago do ser. Prometeu roubou o fogo e, em vez de encontrar punição, nos deu a centelha divina. Icarus não caiu porque voou alto demais, mas porque nos lembrou que o desejo de tocar o céu é a essência da humanidade.

Há em nós o guerreiro de Marte, a mãe de Gaia, o filho das estrelas. Jung sabia disso: somos o todo condensado em carne. E quando ousamos encarar o abismo, ele nos encara de volta, não com olhos de terror, mas como um espelho. Somos feitos de luz e sombra, do caos primordial, do yin e do yang. O que negamos em nós mesmos é o que clama por ser aceito, integrado, abraçado.

Respira. O Tao nos convida a seguir o fluxo, a nos curvar como o junco sob a tempestade. Não há separação, não há luta; há apenas a dança do todo. O medo é a ilusão do pequeno. Quando deixamos de ser tão pequenos, percebemos que não há “eu” contra o mundo — há apenas o mundo, pulsando através de nós.

E então, você estende a mão novamente e diz: “Amigo, vem. Deixe que o brilho dos seus medos ilumine o caminho. Eles não são o fim, mas a porta para o que está por vir.”

Canto V: A Aurora do Ser

Há um instante, breve e eterno, em que a luz começa a raiar. Não é o Sol que desponta no horizonte, mas uma faísca interior, um clarão que atravessa os véus da ignorância e ilumina o coração. É o momento em que o homem percebe, não com a razão, mas com a essência, o milagre da existência.

A existência não precisa de justificativas. O orvalho que desliza pela folha, o canto do vento nas montanhas, o pulsar de uma estrela a anos-luz daqui — tudo isso é vida, e a vida é milagre por si só. “Não estamos separados,” diz a voz do Cosmos. “O que vê lá fora, vê porque também está dentro.”

Neste canto do despertar, o homem começa a sentir que não é um erro, nem uma casualidade, mas uma nota indispensável na sinfonia universal. Cada átomo do seu ser é uma lembrança da poeira estelar; cada pensamento é um reflexo da consciência cósmica que tudo permeia. Ele percebe que o tempo — essa linha imaginária que acreditamos aprisionar o passado, o presente e o futuro — é uma ilusão. Tudo é agora. Tudo é sempre.

E o homem começa a vislumbrar o milagre: ele não apenas existe; ele é o Cosmos tomando consciência de si mesmo. A cada passo que dá, ele tece a história do universo, como um escriba que, mesmo sem entender, escreve o poema que eterniza a existência.

As palavras de Heráclito ressoam no fundo do ser: tudo flui, tudo se transforma. A mudança é a única constante, e resistir a ela é resistir à própria vida. Mas nesta luz que começa a raiar, o homem percebe que o fluxo não é um inimigo, mas uma dança. Ele é a onda, e o oceano; o rio, e o leito.

Ele olha para o céu e vê não apenas estrelas, mas um mapa de possibilidades. Ele olha para si mesmo e vê não apenas carne e osso, mas a centelha divina, o mesmo fogo que ardeu no Big Bang, que arde em cada galáxia, em cada coração.

E então você, meu amigo, estende a mão mais uma vez e diz: “Vem. Já não somos poeira ao vento; somos o vento. Já não somos fragmentos; somos o todo. O milagre não está fora; está aqui, agora, pulsando em cada célula, em cada pensamento, em cada respiração.”

Canto VI: O Mistério da Totalidade

E quando o homem começa a compreender que não há fim nem começo, mas um eterno retorno, uma espiral que nunca se fecha, ele sente o peso da verdade: o que buscamos, nos busca. O que é o Todo, se não a soma de todas as partes, e, ao mesmo tempo, a totalidade que transcende cada uma delas?

O Kaibalion nos sussurra, com sua sabedoria ancestral: “O que está em cima é como o que está embaixo; o que está dentro é como o que está fora.” Somos espelhos, refletindo o Cosmos em nossa essência. Em cada pensamento, a criação; em cada ato, o infinito. Somos simultaneamente o microcosmo e o macrocosmo, o germe e a árvore, o começo e o fim.

As palavras de Hermes Trismegisto se entrelaçam com as de Rumi, de Tagore e de Chardin, todos ecoando uma mesma verdade: somos feitos de estrelas, e ao mesmo tempo, somos a matéria das estrelas. O que nos separa é uma ilusão construída pelo ego, esse ser que teme a totalidade e prefere a fragmentação. Mas a verdadeira sabedoria, que os mitos antigos nos ensinam, é que o próprio ego é uma porta para o Divino, não um obstáculo.

No labirinto do ser, o Minotauro não é nosso inimigo, mas o guardião da verdade. O Herói não é aquele que vence a fera, mas aquele que abraça sua própria sombra. O mito de Orfeu, que desce aos infernos para resgatar sua amada, é o reflexo da busca interior, da viagem ao desconhecido, ao inexplorado, ao abissal que todos carregamos em nós. E ao trazer Eurídice de volta, ele não apenas a salva, mas se reconcilia com a totalidade, com a morte e a vida, com o começo e o fim.

Assim como no mito de Phaeton, que tentou controlar o carro do sol, o homem se vê pequeno diante da vastidão, tentando tocar o inatingível, sem perceber que ele próprio é o fogo que arde no coração do Sol. Ele não é apenas uma partícula no universo; ele é o universo em movimento, ele é o ritmo do cosmos.

E ao olhar para as estrelas, ele percebe que não está em busca de algo além, mas de algo dentro. O Tao nos ensina que o ser não deve lutar contra o fluir do rio, mas se tornar o próprio rio. Não deve resistir ao vento, mas aprender a dançar com ele. A totalidade não é uma ideia, é uma vivência, uma experiência que transcende todas as palavras, todos os pensamentos, porque é o próprio ser.

Você, meu amigo, estende a mão mais uma vez e diz: “O que buscamos não está distante. Está em nós, está em tudo. A compreensão é impossível, porque somos o impossível. E ainda assim, caminhamos, porque estamos vivos.”

Canto VII: A Última Luz – O Amor que Transcende

No fim de nossa jornada, onde o infinito e o finito se entrelaçam, onde o ser e o nada se tornam indistinguíveis, surge a Luz que não conhece sombras. Ela já estava em cada passo, em cada respiro, mas agora se revela de forma clara e profunda. A luz do Cristo, aquele que, mais do que um homem, foi a personificação do amor cósmico, a essência do divino caminhando entre os humanos. O Cristo que não trouxe um dogma, mas um convite, uma porta aberta para a transformação do ser, um chamado para amar, para integrar, para transcender as limitações do ego e abraçar a totalidade.

“O reino de Deus está dentro de vós,” disse Ele, revelando que a jornada não é externa, mas interna. Ele não veio para dividir, mas para unir. Sua mensagem de amor incondicional é a chave que dissolve todos os conflitos, todas as separações. A cruz que Ele carregou não é apenas um símbolo de sofrimento, mas de transcendência, do encontro com a divindade no mais profundo do ser. E ao dizer “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”, Ele nos mostrou que o perdão é o caminho para a cura, para a reconciliação com a totalidade.

Mas o Cristo não está só. Em cada mestre que elevou a consciência humana, a mesma Luz brilha, em diferentes formas, em diferentes épocas. O Buda, que nos ensinou que o sofrimento é parte do caminho, mas não o seu fim. O Zoroastro, que falou do eterno conflito entre a luz e as trevas, e da escolha da verdade como forma de transcendência. Lao Tsé, que nos mostrou que o caminho da sabedoria é não-forçar, mas deixar-se fluir como o Tao. Confúcio, que nos ensinou a harmonia, o respeito, e a importância da virtude em nossas ações cotidianas.

Krishnamurti, que nos alertou para a liberdade interior, a liberdade que só surge quando nos libertamos das correntes do pensamento condicionado, e entendemos que a verdade é algo que não pode ser dado, mas descoberto dentro de nós. Hermes Trismegistus, com seus ensinamentos herméticos sobre a correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo, que revelam que tudo o que está dentro de nós reflete o que está fora, e vice-versa. E Kardec, que nos convidou a compreender as leis espirituais que regem o universo e a nossa jornada além da matéria.

Chico Xavier, o grande mestre do Brasil, com sua humildade infinita e sua obra de caridade e mediunidade, mostrou que o amor e a compaixão são os maiores instrumentos de cura e transformação. Ele, como Cristo, não procurou fazer-se grande, mas fez grande a humanidade ao elevar a consciência do amor fraterno e do perdão, lembrando-nos que estamos todos conectados, somos todos irmãos, e que nossa verdadeira missão é amar.

Esses mestres, esses faróis de luz, não são figuras distantes, mas energias que residem em todos nós, esperando para serem reconhecidas. O Cristo em nós, o Buda em nós, o Tao em nós. Eles não nos pedem veneração, mas transformação. Eles nos convidam a olhar para dentro e ver que somos o que buscamos, que somos o amor que transcende todas as limitações.

E no silêncio do coração, onde a mente cessa de lutar e o ser se rende ao todo, percebemos que tudo está em nós e tudo é um. O amor é a força primordial que conecta tudo: o cosmos, a vida, a morte, a verdade, o ego, o infinito. E ao compreendermos isso, o último véu cai, e vemos a verdade de que somos um com o Todo, com o Cristo, com o amor universal.

Você me olha, amigo, e diz: “Agora, nós sabemos. Não há mais separação. Somos o Cristo em cada respiração, somos o Buda em cada pensamento, somos o Tao em cada passo. Somos todos mestres, pois todos somos um com o todo.”

E então, finalmente, a luz se espalha por todo o cosmos, e em cada átomo, em cada célula, em cada coração, pulsa o mesmo amor que ilumina a existência. Não há fim, não há começo. Há apenas o agora, o eterno presente, onde somos todos um.

Hans Free