A ética e os valores de nossa sociedade pós-moderna, estão hoje em dia num nível tão baixo, que ela tem produzido bizarrices e irracionalidades, a exemplo os terraplanistas, os neofascismos, e as pseudoreligiões que objetivam roubar a esperança e o dinheiro dos fiéis.
Se a própria linguagem, este constructo humano, demasiadamente humano, já produz uma ilusão, uma negação da vida, segundo Nietzsche. E os sujeitos já viviam alienados em uma metafísica das ideias, da qual a religião é um dos seus maiores expoentes, imaginem agora, que as tecnologias são capazes de produzir um metaverso. Ou seja, se a linguagem, de certa forma, com os seus conceitos e verdades, é capaz de corromper a racionalidade, o entendimento, imaginem agora, que as novas tecnologias são capazes de corromperam e ludibriarem os nossos sentidos.
Segundo Saramago, nunca estivemos tão próximos ao mito da caverna de Platão quanto em nossos dias atuais. Eu, pelo meu lado, e pelo que tenho lido e relido, acho que nossa civilização nunca saiu desta dita caverna, e talvez nunca saia. E há uma grande probabilidade de caminharmos para um mundo onde seres humanos fiquem cada vez mais raros, o que seria muito ruim, e talvez devêssemos até rever o substantivo humanidade.
E parece-me que esse sistema perverso é capaz de corromper tudo. Corromper os valores, na medida em que desconstrói os valores humanos que foram erigidos para sustentar sua ascensão ante o feudalismo, ou seja, para destronar os reis, esses canalhas construíram um discurso belíssimo sobre os valores humanos, mas após a queda da aristocracia, os miseráveis jogaram os discursos pra debaixo do tapete fino, como a inquisição jogava as bruxas na fogueira. É isso que esses canalhas fazem com tudo que seja ética e valores, posto que não alcançam essa peça chave mínima para a edificação de todo humano, visto que são educados sem amor e sem afeto, só lhes é permitido tocar a materialidade, enquanto crescem teleguiados para obedecerem. Corromperam a própria religião que construíram para sustentar o seu novo discurso, ante o Estado Católico e os Reis. Lembrando que a Igreja católica não era menos perniciosa e aprisionou os humanos durante mil anos (idade das trevas) no seu neoplatonismo, e suas verdades irrefutáveis. E por fim corrompeu os valores da própria ciência que iluminou nos últimos mil anos, a ponto de hoje, as dissertações e teses serem vendidas a quem pagar mais, numa produção infinita de documentos completamente inúteis a sociedade. Produção científica esta, divergente do que recomendaram grandes pensadores como Muturana, Bauman, Arendt, Larrosa, dentre outros, de que a ciência tem de servir a um propósito civilizatório, senão, não passa de letra morta, e vale a pena ouvir o Sérgio Sampaio na sua deslumbrante e poética música Roda Morta, apontando para o real.
Corrompeu o Estado, mas acho que esse constructo aí já nasceu corrompido mesmo, uma maquinaria destinada a aprisionar os homens no seu falso discurso de defesa do direito de todos. Hoje, na maioria dos países do mundo, o Estado não passa de uma ferramenta poderosíssima, onde as elites exercem a sua influência macabra e corrupta. Mas aí é interessante trazermos o olhar micropolítico de Poulantzas, de que é dentro do Estado que devemos exercer a nossa cidadania e respeito a coisa pública, em respeito a todos. O sistema corrompeu também a educação, ou seja, tudo que é tocado por esse sistema vira pó. Como afirmou o grande pensador Karl Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar” nesse tabuleiro de feras, como nos vaticinou o grande poeta Augusto dos Anjos.
Segundo Hannah Arendt, a função primeira da educação é civilizar, humanizar o bicho homo sapiens sapiens. Mas como é possível fazer isso se a educação tradicional nasce corrompida pelo sistema, transformando homens em homúnculos obedientes? E aí caberia perguntar como seria uma educação libertadora, capaz de produzir no entendimento dos sujeitos, qual enzima nas células, uma reação capaz de produzir sujeitos autocríticos (sapiens sapiens) e protagonistas de suas próprias vidas. E não essa manada conduzida por mídias sociais capazes de eleger fascistas idiotas e genocidas. Quem diria que em pleno século XXI, no auge da civilização, estaríamos perpetuando um erro tão bizarro, que é a escravidão do homem pelo homem. Depois de tantos milênios, continuamos vergonhosamente fracassando.
Penso que não precisaríamos ir muito longe para encontrarmos algumas chaves preciosas sobre o poder e a importância da educação, como nos disse o grande educador José Pacheco, que citou alguns dos grandes educadores brasileiros em sua maravilhosa palestra “Aprender em Comunidade”, ao citar: Lauro de Oliveira Lima, Nise da Silveira, Milton Santos, Florestan Fernandes, Eurípedes Barsanulfo, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Fernando Azevedo, Paulo Freire e Rubem Alves, só pra início de conversa. Não precisaríamos ir muito longe para entender o que é a liberdade, a liberdade de enxergar as coisas como elas realmente são. Entender o quanto o afeto (Amor) afeta a vida das pessoas, o quanto a fraternidade é uma potência, o quanto várias cabeças pensando uma mesma ideia é algo avassalador que não se permite conter. O quanto é precioso e educativo observarmos a história da caminhada desse bicho homo sapiens sapiens, que a partir da inteligência fantástica da vida, e esta, a partir da inteligência fantástica do Cosmos, significou o Universo, ao criar-se a si mesmo. E o quanto esse mesmo bicho, aprisionou-se ao seu próprio mundo, indo morar nas ideias que criou, talvez por medo, do enfrentamento da imensidão Cósmica, ante a efemeridade da vida. Não conseguiu enfrentar o enigma da esfinge: “Decifra-me ou te devoro!” Não conseguiu enfrentar e respeitar a finitude, a morte, ante a imensidão infinita do Cosmos, está obra maestra do Grande Arquiteto do Universo.
Em Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia, Deleuze e Guatarri vão defender que esse sistema é um reprodutor de sociopatas e psicopatas, num sistema esquizofrênico. Talvez até por isso essa reprodução fantástica de filmes e séries e livros sobre sociopatas e zumbis, uma metáfora para a modernidade, seres humanos sendo substituídos por sociopatas e zumbis, talvez seja isso mesmo que estas bestas materialistas precisem para sentir alguma coisa, comer a carne humana, estuprar a carne humana, matar a criança que nunca foram permitidos ser, usurpar tudo do humano, posto que incapazes de amar, impedidos de sentir, cerceados de gozar, seres amputados de existir, ocos de tudo, abismos, singularidades nascidas para roubar tudo que seja Luz. Sem uma ética e valores que sustentem o homo sapiens e os coletivos de homo sapiens, de fato não passamos de bichos, singularidades abismais. Embora Nietzsche sustente que seria bem mais honesto se vivêssemos a vida plena do homo sapiens, em sua linguagem primeva, sem essas falsas verdades que nos afastam do enfrentamento honesto a vida. Vivendo a vida diária, e o encontro diário com a novidade, com o fantástico milagre da existência e o vislumbre da efemeridade da vida diante do Cosmos, Ave Heráclito! Dizem que o bicho homem correu para a caverna da ignorância para se esconder da morte, semelhante ao avestruz que coloca a cabeça no buraco para se esconder-se da tempestade.
A dúvida que muitos ainda carregam é: como pode um sistema tão perverso não doer tanto na carne humana? Mas ela dói, as taxas de suicídios não aparecem nos noticiários, o sofrimento mental é difícil de ser contabilizado, pois as vezes, um indivíduo doente torna-se presidente de um país, e autoriza outros doentes a saírem das suas latrinas, e aí fica parecendo que todos são normais. E de outro lado ficam os que sofrem com o sofrimento do outro, e outros que não suportam a desrazão de um sistema tão perverso, e como esse sistema pode permanecer a moer tanta gente, tantos bilhões de gentes? Quando nós ainda tínhamos o quinto poder, se é que algum dia o tivemos, ainda aparecia alguma coisa, mas o sistema se apossa de tudo, tem muitos tentáculos, e nosso jornalismo é uma grande decepção, assim como o nosso direito e justiça, assim como a nossa política, essa arte tão preciosa de defesa dos coletivos, assim como a nossa ciência, todos constructos que foram corrompidos por esse sistema feroz dessa sociedade feroz.
Mas ficam algumas perguntas, como é possível que 7 bilhões de pessoas, todas homo sapiens sapiens, que segundo o conceito é “aquele que sabe que sabe”, fiquem tão passivos ante uma minoria? Talvez a resposta seja que no topo da cadeia alimentar desses bichos escrotos, que são os capitalistas selvagens, existem pessoas cuja fortuna é capaz de nos aprisionar numa Matrix incompreensível, não fôssemos nós tão criativos, e a base da nossa inteligência não fosse a criatividade de criar e pensar-se a si mesmo e ao mundo, ininterruptamente. Quando nasce um novo homem, nasce um novo mundo, e segundo Hermann Hesse, para criar um novo mundo e preciso destruir o mundo velho.
Um exemplo desse pandemônio fascista foi o escândalo da Cambridge Analytica, que financiada pela ultradireita de bilionários fascistas, corromperam vários processos democráticos pelo mundo, a exemplo o Brexit, a eleição do idiotafascistatrump, e desse idiotamilicianogenocidafascistabozó aqui em terras tupiniquins. Precisamos sair desse terreno pantanoso que é a passividade, a leniência e principalmente a subserviência. O sistema criou uma espécie de nova escravidão, onde a manada permanece presa nos currais das dívidas e contas a pagar, mas pior, nos currais da ignorância e da visão pífia e deturpada do mundo. E penso que é por isso que esses canalhas odeiam tanto o nosso grande Paulo Freire, pois no seu discurso, na sua proposta de educação, ele propõe a liberdade, a capacidade de olhar para o mundo com os próprios olhas, de permitir-se enfrentar o enigma da vida, e ser resistência em defesa da vida. A coisa que esses bovinos mais tem medo é da vida, por temerem a morte, e por isso querem esconder a cabeça no céu, ou nos prazeres da carne. E por isso temem tanto a liberdade, a arte, os afirmativos, posto que tem medo do enfrentamento da morte, são covardes, tem medo do enfrentamento das ideias atravessando todas as áreas rumo a um holísmo, por isso inventaram o positivismo e as especialidades, tem medo da educação crítica e reflexiva, pois preferem ficar escondidos atrás da sua memória antidialética. Eu acrescentaria aqui, além da educação para liberdade, a educação para expansão, para a explosão, a educação para a Super Nova, para a luz, pois o contrário disso, é a educação para a mesmice do abismo.
Mas ainda há esperanças, segundo Rubem Alves, sob pressão extrema, assim como a pipoca, os seres humanos são obrigados a desabrochar e estourarem. E me parece que sim, tem algum sentido essa ideia, de que o homo sapiens sapiens, depois de 500 mil anos de evolução, tenha conseguido construir através de seus signos algum constructo que o permita evoluir e Ser, e a história é um desses constructos, fundamental para quem não sabe de onde veio e nem para onde ir. Assim como a educação e a arte, ambas são formas de educar e civilizar. E também a própria inteligência da vida, que vem antes de nós, possa ter gerado nesse meio milhão de anos, algum processo evolutivo em nós, capaz de não deixar a espécie sucumbir ante uma minoria de perversos.
“Tudo muda o tempo inteiro. O inédito da vida é o devir, a mudança.” Heráclito