“Os pensamentos mais próximos da superfície são borboletas. Por baixo há uma corrente mais profunda. Sinto-me muito afastado dela. As correntes mais profundas são como grandes cardumes que se deslocam debaixo d´água. Eu vejo os peixes que surgem na superfície e estou sentado com a minha linha de pesca numa mão, com um anzol na ponta – tentando encontrar algo melhor do que esse anzol na ponta ou, melhor ainda, uma forma de mergulhar nessas correntes. É uma coisa que me mete medo. Vem-me à cabeça a idéia de que quero ser eu próprio um peixe.”
Parto de uma sentença grave
Assim como parto de uma esquina breve
Para encontrar gentes e gentis
Parto do conforto de uma nuvem de calças
Assim como parto do colo acolhedor de minha amada
Parto como quem parte
A sua própria vida em fragmentos de carnes
Vivas
Parto de um ponto seguro
Para encontrar novos portos
Em gloriosas manhãs
Parto de um sim
Assim como parto de um não em uníssono
Com as mesmas ânsias de um cão sem dono
Hei de encontrar vidas gloriosas e amargas
Parto de um início recebido com glória
Assim como parto de uma morte anunciada
Parto ao toque das trombetas e atabaques
Ao som do último silvo da morte
Antes de chegar em Samarra
Parto de estreitas verdades
Para encontrar mentiras sinceras
Parto de um aglomerado urgente de esferas
Para violentar a dor e o amor
Como um genuíno estupra – dor
Parto de um naco de carne
Que encontrei putrefado no chão
E saio em busca de um corpo subjetivo
Mais sólido do que o corpo real!!!
Parto de uma vida
Nascida de outras vidas
Em busca de um nascimento eterno
Aos tropeços em cada esquina
Segundo Marx, “tudo que é sólido desmacha no ar” nesse sistema capitalista, elaborado pela inteligentzia dos “espertos ao contrário”, como nos avisou a Estamira.
Sistema sustentado pela covardia, dos que herdam ou conseguem recursos materiais as custas de vidas humanas, as custas do adoecimento e da morte dos povos. Sistema sustentado pela covardia de homens meio-sapos e meio-rãs, como nos disse Hermann Hesse, de autômatos e programações que se sentem melhores do que seres-humanos.
A covardia que leva ao fascismo, ao rascismo, ao machismo, ao achismo, a corrupção, a ignorância, a ausência de caráter, de propósito, de sentido, que sacrifica a vida e desrespeita a morte.
A covardia que transforma humanos em potência, em bestas e lacaios de si mesmos.
A covardia que cega, que anula, que sufoca, que esvazia, que desrespeita, e que mata a vida e a criatividade dos que anseiam por uma parcela ínfima, disso que estamos ensaiando e construindo a milênios, que se chama humanidade. Que se chama amor.
“(…) cada célula do nosso corpo é uma parte que está no todo de nosso organismo, mas cada célula contém a totalidade do patrimônio genético do conjunto do corpo, o que significa que o todo está presente também na parte. Cada indivíduo numa sociedade é uma parte de um todo, que é a sociedade, mas esta intervém, desde o nascimento do indivíduo, com sua linguagem, suas normas, suas proibições, sua cultura, seu saber; outra vez, o todo está na parte. Com efeito, ‘tudo está em tudo e reciprocamente’. Nós mesmos, do ponto de vista cósmico, somos uma parte no todo cósmico: as partículas que nasceram nos primeiros instantes do Universo se encontram em nossos átomos. O átomo de carbono necessário para a nossa vida formou-se num sol anterior ao nosso. Ou seja, a totalidade da história do cosmos está em nós, que somos, não obstante, uma parte pequena, ínfima, perdida no cosmos. E sem dúvida somos singulares, posto que o princípio ‘o todo está na parte’ não significa que a parte seja um reflexo puro e simples do todo. Cada parte conserva sua singularidade e sua individualidade, mas, de algum modo, contém o todo.”
Edgar Morin (1996), em Epistemologia da Complexidade, p. 275.
Não importa a poesia
Ou os obstáculos que nos impuseram
Para impedir o passo urgente da civilização
O que importa é que estamos vivos
Vivos de átomos
Vivos de células e moléculas
De poeira de estrelas
Respeitar essa condição
É nunca resistir ao futuro
Como fazem estes débeis
Que se opõem diligentemente
Ao prosseguimento da vida
Não importa se te fecham as portas
A vida é simplesmente um milagre
É onde milhares de portas se abrem
E dissolvem-se em comunhão
É germe infinito gritando pela vida
Pela transformação Cósmica
Não importa!!
O cego do olho
O que permite o ócio e a lascívia
O cancro do ignorante
O riso insosso do mais vil
Vil !! “no sentido mais baixo da vileza”
Todos eles são brutos
Foram esculpidos pela cultura do ódio
Arruinados pela demência do egoísmo
Encheram-se de podres poderes
Mas não importa
A vida é chama infinita
Que nasce na escuridão
De uma gota
É o primeiro raio da manhã triunfal
Roçando a púbis do dia em esplendor
Não importa
Se esses animais mataram Deus
Arrombaram a porta
E se trancaram num inferno
Pior do que o de Dante
Ou se cuspiram na face do Cristo
A grande luz é muito mais do que um corpo de sangue
O verdadeiro ser demasiadamente humano
É uma idéia simplesmente maravilhosa
Que nunca sucumbe
E talvez tenha sido Ele
Penso que só pode ter sido
Só uma luz tão lúcida e limpa conseguiria ser tão forte
O motivo da primeira e única explosão
Não me importam os lassos
Os baixos que se contorcem
Ao beberem a urina de satã
Importa-me a vida
Rugindo a cada segundo
Em cada célula viva da criação
Quantas mil mortes
Serão necessárias
Para que enfim se aceite
Que o Cristo veio falar aos mais necessitados
Aos que consomem a vida com urgência
Dizer das coisas simples
Do milagre da vida
Do amor
Da união
Da verdade
Do respeito
Da água
Do grito infinito…
E que temos de nos permitir sempre
Aprender a engatinhar juntos.
Parto de uma sentença grave
Assim como parto de uma esquina breve
Para encontrar gentes e gentis
Parto do conforto de uma nuvem de calças
Assim como parto do colo acolhedor de minha amada
Parto como quem parte
A sua própria vida em fragmentos de carnes
Vivas
Parto de um ponto seguro
Para encontrar novos portos
Em gloriosas manhãs
Parto de um sim
Assim como parto de um não em uníssono
Com as mesmas ânsias de um cão sem dono
Hei de encontrar vidas gloriosas e amargas
Parto de um início recebido com glória
Assim como parto de uma morte anunciada
Parto ao toque das trombetas e atabaques
Ao som do último silvo da morte
Antes de chegar em Samarra
Parto de estreitas verdades
Para encontrar mentiras sinceras
Parto de um aglomerado urgente de esferas
Para violentar a dor e o amor
Como um genuíno estupra – dor
Parto de um naco de carne
Que encontrei putrefado no chão
E saio em busca de um corpo subjetivo
Mais sólido do que o corpo real!!!
Parto de uma vida
Nascida de outras vidas
Em busca de um nascimento eterno
Aos tropeços em cada esquina