Se eu tivesse uma viola
eu não desenhava poemas
eu os tocava
Tocava Chopin com cheiro de mato
Tom Zé cruzando o asfalto da Paulista
Raul em delírio, Milton no dorso
de um pássaro que cantasse
em latim e yorubá
Tocava o brilho das penas do dia
a sinfonia das estrelas caídas
o soluço dos cometas
Mas o que tenho
são só palavras
parece pouco…
mas podem conter mundos e sons
palavras que me ardem na língua
feito carvão em brasa
palavras que tremem no ar
como se tivessem
um corpo invisível
Aprendi a ser ladrão de fogo
mas não domino o violão das chamas
Aprendi a decifrar enigmas
mas não a construir pontes
entre som e silêncio
Se eu tivesse uma viola
tocaria Dhafer Youssef sob o luar
de um minarete que só existe em sonho
Tocaria Les Ondes Orientales
na varanda de um templo desabitado
Mas eu só tenho palavras, Neia
e mesmo assim
já me disseram que existe o qualia
esse brilho interior das coisas
que não se explica
que só se sente
que só se toca
com a alma do verbo
E eu
malabarista de vogais
prestidigitador de sorrisos
faço de cada frase
uma tentativa de canção
Por enquanto
só tenho as palavras
Mas quem sabe, Neia
eu aprenda
eu capture o mistério da música
quem sabe até surpreenda
a Grande Mente Cósmica
com algum samba-canção
com algum tom em sol menor…
E então, possamos cantar juntos
um Canto General
que abrace o mundo
em clave maior
Abate-me, camaleoa
ave Caetano!
antena parabólica, Camará
ave Gil!
E que venha, enfim
a viola dos dias
com suas cordas
de sol e harmonias
O poema desenha, sim
mas às vezes canta
E por vezes encanta
Ave a viola!
Ave Paulinho da Viola!
Ave a música e o espanto
Ave o arrebatamento-vertigem da poesia
a dança
a música
O encanto!