Escutai, ó filhos desta mãe terra, o que dizem os que vivem nas margens: pois é lá que o rio escava o mundo.
Num lampejo de silêncios
formou-se a sinapse esquecida
Não no cérebro
mas no corpo inteiro e adjacências
na carne viva e fogosa do tempo real
Era uma memória que nunca foi embora
um saber antigo
anterior à linguagem
à lógica
ao nome
um saber que pulsa na Terra
canta nas veias como um rio de fogo
ilumina raízes ancestrais
E então veio o cântico
Indígena
primordial
visceral
gutural
Jorrando sanguíneos pulsares… respira….
Não aprendido
mas lembrado
Entoado por mil vozes
dentro de uma só garganta
Chamado de volta pela própria vida
Uma música atravessada desde os primeiros hominídeos
uma sinapse ancestral varando o tempo
dizendo:
tempo, não é necessário
Foi ali que compreendi:
sou feito de antorchas
Cada célula acende outra
cada gesto desperta um mundo
cada palavra só vale se nascer do Amor
Um raio de luz percorreu bilhões de anos até aqui
desde que o primeiro organismo inspirou
Não há mais rabo para correr atrás
O sentido não está adiante
está aqui, agora, na clareira
nos pés descalços na areia
nos abraços da filha amada
da companheira
dos amigos e irmãos
No calor do Sol
no pulsar da alma que diz:
“vive.” respira…
E nesse instante
a vida não é ideia
É fogo
É dança
é a semente que anuncia a primavera.
É antorcha.