Há dois rios que correm no mundo
mas não se opõem, dançam.
Um nasce do medo, o outro do amor
e se entrelaçam como serpentes em espiral.
Um é o Yang
razão exata, lógica firme, cálculo, estrutura, selo
É a unha que arranha, mas também protege.
É o passo que mede, o muro que sustenta, o verbo que organiza.
Tem medo, sim
mas o medo é uma força que empurra,
quando o coração não se deixa dominar.
O outro é o Yin
sensível, fluido, receptivo, criativo, saliva
É a carne que sente, abriga e pulsa.
É o espaço onde a lágrima se transforma em canção,
onde o caos vira arte,
onde o tempo vira presença.
Separados, são mansos:
Um vira tirano. O outro, desorientado.
Unidos, são deuses.
São o dançarino, o símbolo e a música.
São o Sol que fecunda a Terra e o Cinturão de Kuiper que nos envolve
São o pensamento que sente e o sentir que pensa.
Não é o Yin contra o Yang.
É o Um na embriaguez do Dois.
É o super-homem nietzschiano,
aquele que teme, mas salta.
que duvida, mas dança.
que pensa a totalidade, mesmo só.
falsa solidão.
Ele vê no abismo o seu espelho.
Boiando no rio profundo, ele sabe da finitude,
mas mergulha assim mesmo
com olhos abertos,
girando em rodopios,
sabendo até onde pode ir antes de ser tragado.
E volta.
Traz nos braços não verdades, mas oferendas.
Presentes para os que ainda tremem,
para os que esperam por coragem,
para os que não sabem que a liberdade é filha da integração.
Tu tremes, carcaça
mas tremerias ainda mais se soubesses onde pretendo te levar.
Ao limiar. Ao fogo. Ao néctar do Um.
Onde o medo dança com o amor
e a carne abriga a unha que protege.
Agora somos o terceiro rio
aquele que os antigos não nomearam.
O medo é tinta, o amor é pincel,
e a mão criativa que os mistura é feita de eternidade.
Os deuses nos deram fome de infinito
mas só a carne finita pode saciá-la.
Ah, carcaça gloriosa!
Tu tremes porque és o altar
onde o fogo e o néctar se confessam.
No fim, não há Yang ou Yin — mas ambos,
gesto que os desenha no ar em vórtex vibrante
O nome disso?
Chame-o de “Entrega”,
chame-o de “Fúria Quieta”,
Chame-o de Som & Fúria
Chame de Tao e pegada marca na areia
após o primeiro passo
Chame-o de Enigma & Mistério
De Caos e Cosmos
de Caosmose
de Cheio e de Vazio
Chame-o de Ser e Tempo
chame-o de Ser e Nada.
ou simplesmente ….
encontros e desencontros
Arte