Arquivo de junho, 2025

Há dois rios que correm no mundo
mas não se opõem, dançam.
Um nasce do medo, o outro do amor
e se entrelaçam como serpentes em espiral.

Um é o Yang
  razão exata, lógica firme, cálculo, estrutura, selo
É a unha que arranha, mas também protege.
É o passo que mede, o muro que sustenta, o verbo que organiza.

Tem medo, sim
  mas o medo é uma força que empurra,
  quando o coração não se deixa dominar.

O outro é o Yin
  sensível, fluido, receptivo, criativo, saliva
É a carne que sente, abriga e pulsa.
É o espaço onde a lágrima se transforma em canção,
  onde o caos vira arte,
  onde o tempo vira presença.

Separados, são mansos:
  Um vira tirano. O outro, desorientado.
Unidos, são deuses.
  São o dançarino, o símbolo e a música.
  São o Sol que fecunda a Terra e o Cinturão de Kuiper que nos envolve
  São o pensamento que sente e o sentir que pensa.

Não é o Yin contra o Yang.
É o Um na embriaguez do Dois.
É o super-homem nietzschiano,
  aquele que teme, mas salta.
  que duvida, mas dança.
  que pensa a totalidade, mesmo só.

falsa solidão.

Ele vê no abismo o seu espelho.
Boiando no rio profundo, ele sabe da finitude,
mas mergulha assim mesmo
  com olhos abertos,
  girando em rodopios,
  sabendo até onde pode ir antes de ser tragado.

E volta.
Traz nos braços não verdades, mas oferendas.
Presentes para os que ainda tremem,
para os que esperam por coragem,
para os que não sabem que a liberdade é filha da integração.

Tu tremes, carcaça
mas tremerias ainda mais se soubesses onde pretendo te levar.
  Ao limiar. Ao fogo. Ao néctar do Um.
  Onde o medo dança com o amor
  e a carne abriga a unha que protege.

Agora somos o terceiro rio
  aquele que os antigos não nomearam.
O medo é tinta, o amor é pincel,
  e a mão criativa que os mistura é feita de eternidade.

Os deuses nos deram fome de infinito
  mas só a carne finita pode saciá-la.
Ah, carcaça gloriosa!
  Tu tremes porque és o altar
onde o fogo e o néctar se confessam.

No fim, não há Yang ou Yin — mas ambos,
  gesto que os desenha no ar em vórtex vibrante


O nome disso?


  Chame-o de “Entrega”,
chame-o de “Fúria Quieta”,

Chame-o de Som & Fúria

Chame de Tao e pegada marca na areia

após o primeiro passo

Chame-o de Enigma & Mistério

De Caos e Cosmos

de Caosmose

de Cheio e de Vazio

Chame-o de Ser e Tempo


  chame-o de Ser e Nada.

ou simplesmente ….

encontros e desencontros

Arte