Arquivo de fevereiro, 2025

Nasci nesse intermezzo entre a fortuna e a fome,
No limite onde os opostos se beijam,
O único, genuíno lugar onde enxerga-se o invisível,
Que nos atravessa na flecha lançada das metáforas.
Como Heráclito à beira do rio, vi o fluxo do tempo,
E, no espelho das águas, reconheci meu rosto —
Fragmento do eterno, reflexo do todo.

Minha mãe brindou-me com amor, ternura, obstinação
meu pai-herói acrescentou cooperação e uma biblioteca,
Um labirinto de palavras onde os mortos ainda falam,
Onde é possível a Revolução dos Bichos,
Onde é possível O Homem, o Tempo e o Seu Motivo.
Platão mostrou-me a caverna, Sócrates a virtude,
Nietzsche o martelo que quebrou meus ídolos.
De Zoroastro a Zaratustra, mergulhando na Criação,
Submergi em mim.
Deram-me óculos para ver com clareza,
Mas também foice, machado e facão —
Ferramentas para abrir picadas dentro das ilusões.

Adentrei florestas de sentimentos, árvores,
Ideias, sombras e mistérios.
Colhi e sorvi frutos proibidos, gotas de sangue e mel
Brilharam os meus olhos, fizeram soluços no meu corpo.
Sem medo, percorri veredas estreitas,
Subi dentro das nuvens e colhi brilho e caos em gotas.
E o espanto me esperava em cada curva:
Era o espanto de Einstein diante do cosmos,
De Rilke diante do belo,
De Jung no mergulho do inconsciente.

Construí choupanas, não apenas de carne,
Mas de sonhos, memórias e esperanças.
Plantei árvores para colher não só sombras,
Deitei-me e embrenhei-me no rizoma Walt!
Buscando o solo fértil do ser.
Entre raízes e folhas, colhi amigos e irmãos,
Companheiros de jornada e de destino.

Hoje, busco o pão celestial,
Não o pão que sacia o corpo,
Mas o pão que nutre o espírito.
Procuro clareiras, vazios luminosos
Onde presente, futuro e passado se clareiam.
Agostinho viu o eterno no instante,
Heidegger escutou o chamado no ser-tempo.

Quando o caos se transforma em cosmos
E as sinapses se alinham,
Faço poemas ao amanhecer:
Versos que brotam como flores no deserto,
Estrelas cintilando no firmamento,
Gotas no oceano cósmico,
Pequenas, mas parte do infinito.

Sou grão de areia na vastidão do oceano,
E deserto inteiro na onda do mar-tempo,
Também as profundezas onde nasce o ignoto.
Na pequenez encontro a maioridade,
Na finitude, a eternidade.

Assim, caminho livre onde me sei,
Perco-me enquanto me desconheço.
Ah! O homem é o seu mistério,
Um enigma que se revela no encontro:
Eu e Tu, mais-que-perfeitos,
Na improvável construção
Do entrelaçamento com o Outro,
Eu me encontro com o Todo.