Arquivo de novembro, 2024

Elegia ao Amor e a Vida

Publicado: 15/11/2024 em Ensaios

Existe um pulsar no centro de tudo, uma presença que habita cada célula, cada estrela, que costura todas as eras e liga todos os seres. Esse pulsar é vida, e seu nome mais verdadeiro é amor. Não um amor que se limita ou se prende à matéria, mas o amor cósmico – aquele que brota do mesmo mistério que gera galáxias e pulsa no coração de cada ser vivo e humano. Esse amor é o alicerce, a semente e o destino.

Lá no fundo, cada grande Ser, cada Avatar que caminhou sobre esta Terra, já reconhecia: “Não há separação.” A ilusão das diferenças cai quando olhamos além dos olhos. Como disse o Buda, não há outro caminho senão o do desapego das ilusões. E o Cristo caminhou entre nós, dizendo: “Amai-vos uns aos outros”, como quem aponta para a chama que pode reacender a centelha divina na humanidade. Para os antigos sábios, a verdadeira revolução não era contra o outro, mas contra o medo, contra a ignorância que aprisiona e seca a fonte da coragem.

Somos feitos para experimentar o vasto, o indizível. Cada um de nós é uma expressão única e irrepetível da inteligência da vida, da consciência que quer se conhecer e se amar através de bilhões de formas, rostos, vozes, risos, gestos. A vida clama em nós para ser vivida em sua inteireza. Não para ser uma sombra no teatro das ilusões, mas para ser fogo, água, verdade, beleza e ternura. A beleza que nos desperta é o chamado para nos libertarmos e para vermos os outros como a nós mesmos. “É de um homem para o outro que se passa o pão celestial de Ser o si mesmo” (Buber).

O amor – esse amor que nos une, que todo fascismo teme, que toda covardia tenta apagar – é o que rasga e ilumina as trevas. Pois o amor é coragem em sua essência. Como nos ensinou Sócrates, viver sem examinar a própria vida é submeter-se a correntes invisíveis. “Conhece-te a ti mesmo” — gravado na entrada do santuário em Delfos, é um pensamento poderoso que atravessa os séculos, chamando-nos ao autoconhecimento e à liberdade interior.

Nietzsche também nos mostrou que amar o que é – o real – é uma afirmação de poder e liberdade. Aquele que vive com medo da verdade foge de si mesmo, tornando-se escravo de uma ilusão. Mas aquele que verdadeiramente ama não conhece amarras, pois reconhece que sua alma pertence ao universo, à totalidade.

Embora amarras ideológicas e correntes de pensamento nos aprisionem, o amor se ergue como a singular pergunta e a fantástica resposta – a palavra princípio. Porque o amor é a inteligência em seu mais alto potencial. Não é uma força cega, mas a essência da vida, refletida no respeito, na liberdade e na criação, a energia que subjaz e une Tudo!

Ele (o Amor) nos convoca, quando necessário, a nascer de novo, a abrir os olhos além do que o sistema nos diz que somos e podemos. Convida-nos a resistir, a sermos autores de nós mesmos, a restaurar nossa potência. A vida, em sua verdade, é ser infinito, é ir além de todos os limites.

Abyssus abyssum invocat – um abismo (ignorância) sempre chama outro, mas também pode ser a base de onde a luz da civilização emerge. Integrar o caos é transformar sua força bruta em uma nova ordem. Huxley nos alertou: “A covardia expulsa o amor, a inteligência, a bondade.” O amor é a única força capaz de destruir essa covardia e de rasgar as mentiras que escondem nossa grandeza. Porque quando escolhemos amar, escolhemos ver o que é real, ver o outro como ele é, ver o mundo não como querem que vejamos, mas como ele se revela em sua plenitude.

Quando escolhemos ser livres, como Sartre afirmou, a liberdade é a nossa condenação, caso optemos pelo ser humano ao invés de autômatos, subservientes, capitães do mato ou Cyphers dentro da Matrix. Uma condenação de quem assume a responsabilidade de cuidar do outro e da humanidade. “O homem está condenado a ser livre, condenado, porque não se criou a si mesmo, e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo aquilo que fizer.” A princípio parece um peso, mas não é, o peso maior está em não ser nada (quando cheios do que não somos), em não ter um propósito dentro do milagre cósmico da vida, pois é justo aí, nessa completa desconexão com vida, que reina todo o sofrimento humano.

Invoco aqui todas as vozes dos que vieram antes: os artistas que transbordaram e nos mostraram o caminho da liberdade, os pensadores, os santos e profetas de todos os cantos e épocas, aqueles que sabiam que a vida só é vida em sua intensidade, em seu encontro, em sua verdade visceral, em seus mistérios.

Amemos, então, com coragem! Que a coragem seja nossa oração, que o amor seja nossa revolução. Que cada ser humano desperte, um a um, como bilhões de sóis nascendo, como bilhões de galáxias pulsando em uníssono, para essa força que é pura vida. E que sejamos a expressão plena dessa inteligência que criou os mundos, dessa consciência que habita cada um de nós e que nos liga a tudo e a todos. Pois estamos aqui para sermos inteiros, para sermos chama infinita, para sermos luz. Como disse o poeta: “gente é pra brilhar, e não pra morrer de fome.”

Como vaticinou Rumi: “Nós não somos uma gota no oceano. Nós somos o oceano inteiro em uma gota.”

Sejamos a mudança que queremos ver no mundo, uma realidade viva, concreta, pulsante, aqui e agora. Mudança e transformação que vem acontecendo há milênios, e segundo Heráclito de Éfeso, tudo o que permanece é a mudança. E, ao final, saberemos que todo amor que compartilhamos é uma faísca eterna, brilhando para sempre na tapeçaria cósmica da existência.

Estas palavras não são verdades absolutas, pois não existem verdades absolutas, posto que o que permanece é a mudança, mas um convite a refletir, sentir, viver. E que cada um, à sua maneira, descubra o pulsar do amor em si mesmo e no mundo. E compreenda a importância do respeito a vida, do milagre da existência, e entenda que o processo civilizatório – iniciado há 3 milhões de anos pelos hominídeos e ampliado há 300 mil anos pelos homo sapiens, e amplificado ha 60 mil anos pelo homo sapiens sapiens – precisa continuar sua jornada de emancipação e consubstanciação com o Cosmos. Precisamos urgentemente continuar a nossa evolução, o nosso crescimento, a nossa missão de Supernova.

“O futuro entra em nós, para se transformar em nós, muito antes de acontecer.” – Rainer Maria Rilke

Hans Free