É possível a um homem cantar o espírito do seu tempo?
É possível a linguagem traduzir o sentido do seu tempo
Quando surgiu o primeiro poeta
Antes ou depois da linguagem
Se poesia é sentir
Quem veio primeiro,
o sentir ou o sentido
Quem veio primeiro,
o propósito ou a linguagem
Que diz
Quem disse o primeiro poema
Quem vociferou pela primeira vez na tribo
As canções de Liberdade
E antes dessa vociferação
Quem tocou os batuques
Quem inventou os batuques
Tunc, tunc, tunc, tunc!
Quem inventou os batuques?
Quem inventou a canção do coração?
Quem definiu o ritmo do coração?
Quem engendrou a sinfonia da vida?
Quem instigou a faísca do raio-trovão
O som do borbulhar e marulhar
do mar e do rio
Quem desencadeou o ritmo das ondas
E quem disse ao andarilho
que era possível deslizar sobre as águas?
Quem disse ao poeta que era possível falar sobre as percepções, sobre as coisas
Sobre o espírito do tempo!
Sobre o sofrimento, sobre a dor, sobre o amor
Quem? Diz ao homo sapiens o que ele tem de ser?
Quem diz ao coração o ritmo que ele tem de bater
Em maestrons eletrificando o sangue os átomos e a alma
Quem diz a quantidade de amor que é preciso dar
Quem sabe o caminho a seguir
Quando o corpo morre no gozo
Quem diz a intensidade do sumir
Quando o poeta diz sobre o som e a fúria do seu tempo e vaticina: Subamos!
Quem ousa duvidar?!
Se o sangue ferve
Se a alma exige a verve
Palavras em vórtex rodopiantes
sob o núcleo esférico dos desejos
Como é possível romper o véu?
Como é que se faz pra sair da porra…
Desta caverna?
E se eu quisesse
com meus próprios punhos e braços
levantar-me do barro da criação
E a plenos pulmões gritar:
Maiakóvski
Pádua Lima
Sartre
Zaratustra
Herman Hesse
Walt Whitman
Saramago
Rilke
Rimbaud
Huxley
Leminski
Borges
Guatarri
Pessoa
Krishnamurti
E atingir a primeira e última Liberdade!
. ”Quando eu morrer
não quero choro nem vela,
quero uma fita amarela,
gravada com o nome dela”
As vidas são feitas de retalhos
Quando?
em sã consciência
eu poderia dizer que atingi
a primeira e a última Liberdade?
Que rodopiei em vórtex
no crisol mágico da genitais impurezas
Que atingi o espírito do tempo
Levantados do chão
Ópera maestro de Deus
Se fomos insuflados pela palavra
Quem é esse
que ousa dizer que a palavra não é capaz
de dizer sobre a sua constituição?
Um homem em transformação e mudança é aquele capaz de dizer e cantar sobre o seu tempo e o seu futuro
mas sobretudo
agir em congruência com as suas palavras
Zumbi era Lampião
Lampião era zumbí!
Quem é o homem
o ser capaz
de capturar o espírito no seu tempo?
Pessoa era Whitman
Whitman era pessoa
Quem ousa cantar as canções
Quem ousa bater-se
Insuflar-se
Se não o homem que entendeu
Uma vírgula
Da Teia da vida
Mas ousou torna-se chama
Ousou bater e respirar no ritmo
Do próprio corpo
E sobretudo!
Sobretudo!
Ousou amar cada milissegundos
Dessa explosão infinita
E dessa possibilidade infinita
Efêmera, mas infinita
Enquanto o sangue continuar a jorrar
Pelos buracos de minhoca do COSMOS
E mais que TUDO!
Ousou amar e respeitar cada ser
Cada brilho no olhar
Cada lágrima
Cada grito
Cada criança
Este fruto bendito
Essa semente cósmica
Que cresce em cada um de nós
E que precisa evoluir sempre
Se quisermos ser
mais do que o último segundo
Do relógio do Universo
Por isso eu giro
Em rodopios Sufi
Em sintonia com as batidas
do Deus do meu coração!
”Eu gosto dos que tem fome
e morrem de vontade
dos que secam de desejo
dos que ardem.”