Há uma grande diferença entre a construção de uma visão de mundo, e a herança ou aquisição ou imposição, de uma visão de mundo.
A primeira opção dá um pouquinho mais de trabalho, porém, depois que você entende que nós somos milagres, e assume o compromisso com a vida do outro, e com a sua, e torna-se mais comprometido com o real do que se é, com o existir e sentir cada milissegundos da existência, esse milagre inenarrável, há uma leveza, uma serenidade, uma alegria. Almejar a liberdade completa, o Ser aí, o Dasein de Heidegger, o que Jung vai dizer que é o que resta, ao final do processo de individuação… um homem, e a sua eterna procura de si mesmo, Ave Rollo May! Ave Richard Fernão Capelo Gaivota Bach, em seus vôos rasantes em desafio a ventania e a velocidade, e a subida alta, bem alta, ante a gravidade e ausência de oxigênio, leve, como uma bolha de sabão a brincar no espaço.
Já na segunda opção, há uma ilusão de que é uma escolha sem dor e sem sofrimento, mas que exige menos comprometimento com a realidade, com os seres vivos e com o semelhante, com o Ser e a sua construção, enfim, menos comprometimento com mundo. Há aqui uma espécie de escravidão, de subserviência, de passividade, de anulação do potencial, posto que subordinação. Esses miseráveis estão a milênios do super homem de Nietzsche, como interpretaram alguns fascistas ocos de pau da terra quadrada dos quadrinhos e do mundo bizarro. Nunca serão! O Super Homem de Nietzsche, é justo o contrário, o avesso, a centésima potência de qualquer asco.
Ambos os caminhos são realidades possíveis, porém, são diferenças definidoras do que se quer ser, do que verdadeiramente se é, e do que nem se sabe que se é. Uma rica e fantástica incerteza, brilhante! Como o nascer do sol. Luminosa! Como a Lua cheia.
Todo mundo quer a liberdade, mas a liberdade exige responsabilidades, e as pessoas não estão dispostas a responsabilizarem-se, vaticinou Freud.
Essa reflexão me lembrou a frase do personagen Cypher, do filme Matrix: “Eu não quero me lembrar de nada. Nada! Você entendeu? E eu quero ser rico. Você sabe, alguém importante, um ator famoso…”. Não é a toa que, justo, a indústria da ilusão, do esquecimento, Maya, nos remete ao topo da cadeia alimentar do sistema, e não é a toa que os principais personagens são sociopatas e psicopatas. Salve Benjamin, Deleuze e Guatarri!
Esse lugar onde o sujeito não se importa com o que se é, não se importa com o ser e principalmente com o outro, ou seja, não ter ambições de existir e cuidar do outro, é um lugar cômodo, sem responsabilidades e sem amor. Ignorância é uma força. Mas o sofrimento aqui, embora pareça pequeno, é uma ilusão, é uma captura, o sofrimento aqui é tanto, que o sujeito perde a sensibilidade, e as vezes precisa mesmo cortar a própria pele, furar a própria carne, escravizar o outro, aproximar-se da morte constantemente, na tentativa vã, de sentir alguma coisa, de emocionar-se, de gozar, de destilar lágrima, e segurar-se, com as unhas, as vezes, nas bordas da vida. Morder e cortar a boca para sentir o sal no sangue da vida.
Talvez seja esse irresponsabilizar-se, que Bauman vai chamar de vida líquida, Melman de “O Homem Sem Gravidade”, talvez seja esse o grande Mal Estar da Civilização, seres humanos que não nascem mais, Homo Sapiens interrompidos.
A teoria crítica vai dizer que esse é o homem funcional, executivo, positivista, individual e sozinho. É aquele sujeito que prefere ir para Marte, do que parar, refletir, medir as consequências dos próprios atos, olhar para o mundo do real pela primeira vez, e responsabilizar-se, enfim… começar a reorganizar e limpar a própria casa, entender que é necessário e urgente cuidarmos do futuro dos nossos filhos.
Lembrei de uma ideia milenar, atravessada e recomposta por um música urbana:
“… sem amor, eu nada seria….”