Sempre que alguma coisa me incomoda eu costumo subir bem alto
Alguns preferem DMT
Eu particularmente uso Vinícius
E faço minhas acrobacias
Noutras vezes uso Pessoa
E também saúdo os que vieram antes dele
E também antes dele, dele e Deles
E costumo ficar bem rente as folhas, aos musgos
tez a um milímetro de atingir a ponta molecular da gramínea
e da barba rala, espessa e fecunda de Walt Whitman
Busco sempre me inteirar dessa Sociedade Universal de Poetas Mortos
Outro dia me chegou Rumi e Kabir
fico pasmo! só de pensar o quanto eles eram VIVOS!
Ave Reiner Maria Rilke
e algumas vezes transporto-me para a entrada do umbral
onde os olhos da esfinge me eletrizam e hipnotizam
E ouço baixinho um silvo bem antes de Samarra!
Bem antes do sétimo círculo, selo
Decifra-me! Enquanto te devoro.
Enquanto te gozo!
Enquanto rasgo a cabeça insípida dos teus Bósons!
Enquanto sustento-te no Vórtex dos teus ossos duros
nessa tua carne ardente
Subamos! Até a abóbada!
Até o cinturão de Kuiper
e só voltemos se formos grávidos
para essa terra de gente estúpida e insossa
essa Deusa-Mãe de tantas fendas suculentas de animais fantásticos
e vales rios que serpenteiam as encostas nuas dos montes paragens
Platôs para todos os pontos fecundos desta terra
densas florestas onde os bichos pululam em imensa euforia
oceanos de planctídeos de cujo ventre emergem os seres mais abissais e o oxigênio da vida de Gaia
Tudo vivo e quente e forte
Só para sentirmos o coração sair pela boca
mais uma vez
Só para sentirmos a Petit Mort
mais uma vez
Só para quase pararmos o coração de tanto bater em êxtase
mais uma vez
Enquanto a esfinge nos sorve milisegundamente
enquanto pairamos no ar perplexos com o enigma
Que mais uma vez nos cospe etéreos
antes de nos dissolvermos em sua língua felimilenar
e por um minuto ficarmos…
p.a..r…a….d…..o…..s
tranquilos…..
o.c.i.o.s.o.s
altos
a baba escorrendo pela boca nua
no centro do centro do centro do centro …..
do buraco supermassivo epicentral negro da espiralar Via Láctea
Sucumbindo-se
desvelando-se
IMENSAMENTE imersos em sonhos!
“A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua, toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!” Rubem Alves
