Canto a Ogum

Publicado: 24/03/2020 em Uncategorized

De um lado os que choram pelos que morrem e pelos que vão morrer, e do outro, os que debocham dos que choram pelos que vão morrer. Enquanto os mais ricos (“a elite”) tratam a todos como um imenso rebanho, um imenso gado humano. Povo marcado eh! Enquanto o funâmbulo vai pulando de um lado ao outro, com a sua sombrinha verde e amarela, achando lá no fundo, que está mesmo é fazendo graça entre os cadáveres, sob os olhares perplexos da nação acuada. E lá no fundo essa besta, seguida por tantos cegos, só quer mesmo é continuar comendo essa gente pobre, essa gente desgraçada, essa gente saída da senzalas, dos canaviais e coqueirais, essa gente saída das matas e dos rios das favelas. Eh vida de gado, povo marcado eh! Arre! Arre! Arre! Sob o assoalho dos ricos que nem moram aqui, pois venderam sua pátria ao estrangeiro, um cemitério de cadáveres sustenta essa nação, um rio de sangue de gerações corre sob nossos pés, e as almas de seus ancestrais nos observam há milênios, nos insuflando com seus sussurros, pedindo-nos coragem para defender a vida.

Dizem que é aqui, nesta terra miserável de feras, que nascerão os homens e as mulheres do futuro. Ave Cruz e Souza!

Dizem que é daqui, desta terra celeiro de mundo, onde as almas humilhadas e pisoteadas acalmar-se-ão ante a vilania dos boçais, e elas deixarão que os homens surjam de seu ventre, de seu redemoinho de lama, sangue e cal.

E com a espada em riste, pintados com a cor do sangue de Ogum, os homens sementes vencerão os abomináveis seres das trevas e conseguirão aplacar a dor das almas dos injustiçados. E conseguirão vingar-se dessas cabeças de prego que não pensam.

E fico assim a matutar: “Quem é o teu inimigo, o que tem fome e te rouba um pedaço de pão, chamá-lo teu inimigo?[…]”

O que chora e se enternece com o que sangra? O que se empalidece e se assombra com a capacidade desses zumbis de comerem a carne humana e ceifarem as vidas dos despossuídos da sorte.

“[…] mas não saltas ao pescoço do teu ladrão que nunca teve fome.”

Cante! Onde há vida, há esperanças

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