Confrontei-me hoje com a pena e a palavra
Esta reunião quinzenal antes de já começar me acabrunhava
Pois eu sabia das provocações que adviriam
Uma delas e que nestes últimos tempos sinto-me um despossuído
Um danado
Com se a fonte que jorrou da minha artéria cerebral durante as últimas décadas estivesse entupida
E não é porque vou fazer quarenta
Não é porque o mundo está pálido
Ou porque descobri que Mefistófeles é o oitavo passageiro e está parindo bestas da sua visgosa e gigantesca pança
Não é porque faço perguntas simples e as pessoas se espantam
Nem por causa dessa impressão de que a maioria está vencida e o restante prostitui-se
Ou porque vou ficar careca
É porque o meu coração bate
É quando reúnem-se pessoas em torno da arte
Tudo!!!!
Tuuuudo !!! Pode amanhecer
Mesmo assim sinto-me um pouco entrevado
Esta coisa que intitulei de maré-baixa
Fases… fases… fezes
Como se a cabeça estivesse entupida de coisas desnecessárias
Que bom termos estes espaços
E eles estarem cheios e vazios
Para que eu possa preenchê-los com os meus sonhos e as minhas dúvidas
Que bom que nem todos foram dormir cedo
Quem bom!!!! Ave! que eu ainda tenho companheiros que se incomodam
Com esse chão movediço
Com estas telas hipnóticas
Com estes olhares alhures
Meu deus!
Oh! Grande Arquiteto
Que trabalho colossal tu nos deste
Construir um propósito em nossas vidas
Significar nossos desejos
Meu deus
Utilizando apenas as palavras
E o músculo que me destes
É a mente que me envolta
E é através dela que queres que eu mova as alavancas
Ou nem que as mova
Mas as revele
Ou nem que a revele
As enxote
E as mande para longe
E as solte aos ventos
Sob os olhares dos incautos
Dos insossos
Dos que nos observam sigilosos
E dos que nos amam
Sobretudo
Dos que nos amam
Não há oh mente universal de tudo
Nada, nem tú!!
Coisa mais brilhante do que um olhar amante.
