Quando eu me farto
desta coisa miúda
que se chama ignorância humana
e a esperança corre doida e nua dando pulos em rodopios feito uma criança
eu rezo…
lendo e me encantando com a primazia e sofisticação da Saudação a Walt Whitman
Saudação_a_Walt_Whitman_Álvaro_de_Campos-Fernando_Pessoa
um texto cascata de água fria na Fonte
onde a Sede e a sujeira são saciadas… pareadas e cúmplices perfeitas
uma obra imortalizada pelo oxigênio que exala a século
aqui as palavras comprometem os sentidos
os objetos
todo e qualquer tipo de certeza aprisionante
fustiga e emociona de uma maneira fantástica
um diálogo entre duas existências desmaterializadas pelo tempo
mas plenamente sustentáveis pela magnitude
ah!! quem tem sede quer beber uma água limpa e fresca
e diante desta sujeira fosfórica do nosso tempo
que parece até impossível de se limpar destas ondas de rádio que estão em tudo
mas aqui… neste momento de encontro
onde as palavras surpreendem-se ao esbarrar na sua razão de existência primeva
as minhas esperanças se renovam
o Pessoa e o Walt Whitman juntos pra me fazer só rir
dois mestres que se encontram através das palavras
e sobreviveram para nos brindar com seus poemas
nestas horas de descanso e do ócio roubado
o Titã que existe dentro de mim abra os olhos
sente que os batimentos do coração são absurdamente necessários
e o comboio de cordas que alavanca e projeta meu santuarium
sob o roçar ígneo das esferasglóbulos VERMELHOS
o eu quero se anima
e a vida ganha sentido
impávida
imperiosa
reverberando ante a letargia dos olhares e dos ouvidos moucos
nós somos os herdeiros da terra
surpreendidos pelos ratos que infestaram a superfície da matéria
no sistema capitalistahierárquico de poucos
a nossa lança acessa é o Espírito Vivo
Espírito de Tudo
organismos em busca da preservação da sua morada
oh! musa encantada
teus frutos não podem arrefecer
alguns transformaram-se em erva daninha
mas gerastes tantas vidas
que as que vingaram suplantam as que nascem abortadas
7 bilhões querem fazer amor contigo
e aproveitar o milagre que és
somos os teus guerreiros ante a tirania dos fúnebresdedesejos
quando parte o comboio Walt?
quando parte o comboio Pessoa?
embora seja grande a vontade de dançar convosco na garoa de Shiva
é maior o desejo de proteger a nossa casa ante a covardia e a ignorância dos bárbaros
e dos vermes que carcomem o miolo no crânio destas bestas que querem aniquilar a existência
posto que incapazes de sentir o sabor da vida e do amor que existe dentro dela
há muito ainda por fazer nesta terra de Gigantes
O verdadeiro enigma no poema
é o momento em que o poeta sorve e exprime em palavras o milagre da vida
e embora queiramos embalar os homens a vislumbrarem um caminho
o poeta não ensina nada
tenta comungar alguma coisa
ele escreve poemas e vive em combustão
e desorganiza o sistema
porque ninguém aguenta o mármore do vazio
que reza a morte da consciência humana
o milagre da existência
é a liberdade que conquistamos
os homúnculos aceitam a arte
principalmente quando o artista está morto ou no caminho
mas estas bestas odeiam tudo que tenha ou indique o brilho da Grande Luz
pois assim é possível suportá-lo
ou quando sua arte não provoca a reflexão
e o sistema o exorta
e o coopta covardemente e o transforma em mártir das sensações
pois o artista está morto
o cadáver não pode mais contra argumentar
exprimir
o que sentiu.
o sistema é foda
pois não tem escrúpulos ou ética ou o que valha
e os seus lacaios dançam covarde e suavemente sobre os corpos
que pintaram e cantaram a verdadeira arte
e lutaram pelo eterno retorno
da condição humana.
Quando parte o último comboio Pessoa & Walt?
Para que nos encontremos em alguma dimensão desse multiverso.
Cuspidos pela bomba h ou pelo acelerador de partículas ou mesmo pela diva fatalidade.
Andrey Mozzer
