“Conheço muitos que não puderam quando deviam, porque não quiseram, quando podiam.” Rabelais

Publicado: 22/06/2011 em Uncategorized

Eu tenho muito medo de errar, acho até natural, principalmente num momento histórico tão preso as incertezas do acerto e do certo, e tão distante do maravilhoso aprendizado que podemos conquistar quando temos a liberdade de errar. Mas eu tenho mais medo ainda é de não tentar. E não tentando, não me expondo, não me mostrando, não me posicionando, não me apresentando e dizendo o que sou, e qual a minha implicação com as potencialidades do ser.

As vezes é bastante cômodo permanecermos anônimos, em cima dos muros, principalmente numa sociedade veladamente repressora, aterradoramente hipócrita e cínica, o que dificulta sabermos a dimensão e a altura dos nossos muros. A ignorância é uma força avassaladora, ignorando não compreendemos quais as consequências e alcances das nossas ações sobre o mundo e sobre todos aqueles a quem podemos chamar semelhantes ou membros da mesma espécie. E muito menos quais as consequências das nossas ações sobre o nosso planeta, nossa espaçonave Terra, que vem abrigando a nossa raça e milhões de outras formas deste milagre que se chama vida, ao longo de milhões de anos, pedindo-nos em troca coisas simples, tais como: Sabedoria, Amor… Evolução.

Escrever qualquer coisa, agir de qualquer forma, parece bastante fácil, e é. Quando agimos de forma impensada, irresponsável, sem medir as consequências de nossas ações, sobre os outros, sobre a vida, sobre o mundo, sobre o nosso futuro, parece que tudo é muito fácil, muito digerível. Nosso sistema capitalista atual preza muito isso, sua finalidade é essa, produzir mais matéria, mais ilusão, mais gozo sem limites, mais inconsequência, tudo em busca da multiplicação do dinheiro. Por isso, para o sistema, não importa se o que foi dito tem valor ético ou não, o que importa é que ele gere lucro. Para o sistema, não importa se o sujeito provoca a morte direta ou indireta de outros seres humanos, ou da vida de qualquer espécie, o que importa é que essa ação dê lucro. É um sistema básico, onde o ser humano tem o mesmo valor de uma bateria, capaz de fazer mover a roda de um brinquedo de controle remoto. Aliás, de onde será que vem esta estranha impressão de que somos conduzidos por fios invisíveis, e de que tudo o que acontece no mundo é decidido por 1 dúzia e meia de homo-vampyr-sapiens, em silêncio.

Escrever ou agir assim é fácil. Difícil mesmo é escrever alguma coisa que tenha um sentido coletivo, ético, um compromisso maior com todos. Somos quase 7 bilhões de seres humanos na terra (confira no site: http://www.worldometers.info/pt/). 80% da riqueza produzida no mundo está nas mãos de 16 milhões de pessoas (0,02 %) . E os 20% restantes, nas mãos de 6,96 bilhões, é esse o grau de irresponsabilidade e de covardia a que chegamos. E quando desviamos o nosso olhar para essas informações, quando colocamos nossas cabeças nos buracos semelhantes aos avestruzes quando pressentem o perigo, estamos sendo coniventes com tudo isso. Porque é tão difícil nos responsabilizarmos por nossas ações, e pelas consequências delas? Será que há alguma programação subliminar nesse sistema que nos impede de termos coragem? Será que a televisão está dominando nossa vontade, nos transformando em zumbis? Ou será que tudo isso se dá porque não nos posicionamos na hora correta? Será que temos medo dessa realidade tão absurda? Não é a toa que gostamos tanto das ilusões, não é toa que evitamos tanto a realidade, não é toa que as ilusões são nossa máxima construção, o cinema, o turismo, as novelas, as drogas, a realidade virtual, as mentiras, tudo isso nos permite descartarmos o real, tudo isso permite que gozemos doceeinconsequentemente nos braços da nossa ignorância.

Todo esse teatro, toda essa dissimulação, toda essa manipulação, toda essa mentira é justamente para que não consigamos compreender as consequências de 80% de toda a riqueza do mundo estarem nas mãos de 16 milhões de pessoas (0,02 % – menos de 1/2 % da população do planeta). Consequências essas que são: a miséria, a fome, a insegurança, a falta de oportunidades, o suicídio, o subdesenvolvimento dos povos, a miséria e a morte de milhões de pessoas em todo o mundo, as mudanças climáticas em nosso planeta, que por sua vez provocam catástrofes, milhões de desabrigados, a morte da milhões de espécimes e da vida na terra. Toda essa miséria e injustiça para que alguns poucos (0,02%) possam gozar a vida e vivê-la sem limites e sem nenhum compromisso com a vida humana, aliás, tratando o resto da raça como se fossem sua ralé, retirando de bilhões as oportunidades e possibilidades de viverem o milagre da vida e existência humana na terra, com o mínimo de dignidade.

Como é possível que às portas do século XXI, com tantas informações disponíveis, continuemos nos enganando e aceitando esses disparates sem nos incomodar e indignar? Será que precisaremos de mais mil anos para sairmos das nossas cavernas de sombras, de sonhos, de ilusões, para entendermos que 0,02% não podem deter 80% da riqueza, enquanto 99,98% detém o resto. Não é possível admitirmos um sistema tão imoral e injusto. Não digo que tenhamos capacidade sozinhos de fazer quaisquer diferenças nessa lógica bizarra, mas somente o fato de não concordarmos com isso já é um grande passo. Somente o fato de não ficarmos acomodados em cima dos muros já é um grande passo. Somente o fato de não enfiarmos nossas cabeças nos buracos já é um grande passo. Somento o fato de simplesmente não desviarmos o olhar para o óbvio já é um grande passo.  O fato de não agirmos como o avestruz, enfiando a cabeça no buraco, negando o perigo, negando a realidade, já é um grandessíssimo passo, principalmente por que nós, ao contrário do avestruz, dizem os cientístas, somos seres racionais, capazes de entender a realidade, capazes de pensar. A maior miséria humana é a ignorância, é não ter uma opinião formada sobre nada, é permanecer inerte, passivo, enquanto as esporas e os chicotes rasgam a carne e sangram o nosso semelhante, e da mesma forma que há 2 mil o Cristo foi pregado na cruz, hoje as cruzes estão sendo pregadas nos homens, aquilo que nos fizemos ao grande Mestre, está sendo feito a 6,9 bilhões de pessoas em toda a terra, a quem as oportunidades de existência estão sendo negadas.

Ficamos pasmos e indignados com a covardia diária que vemos crescer em nossa sociedade, e nossos noticiários estão repletos de exemplos de espancamentos, estupros, assassinatos, roubos, bizarrísses. Mas não conseguimos enxergar a covardia de nossas ações, na hora em que negamos esse jogo sinistro de forças que condenam o mundo inteiro, que condenam a todos nós.

comentários
  1. Excelente colocação conscistente verdadeira e irretocável.

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