Infelizmente a ética de nossos dias vaga num nível baixíssimo, mundo vasto mundo… mas não se pode afirmar que em algum momento a ética foi melhor do que é hoje. Somos operários em construção nesse Baixio das Bestas (http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2007/05/09/295681173.asp – uma viagem pela miséria humana). A vida humana perde o seu valor a cada geração nessa sociedade de “espertos ao contrário”, de individualistas, de materialidade desenfreada, onde a única coisa que tem valor é a imagem, e a única coisa que move é o gozo, a qualquer preço.
Sisteminha medíocre e tenaz esse tal de capitalismo, fruto mais-que-perfeito do Grande Leviatã. E por trás da imagem / estética, nos deparamos com um vazio de propósito e de existência, e com uma fria caricatura do que um dia convencionamos serem características da espécie humana. Estamos mais próximos dos homúnculos do que dos homens, e os seres humanos raras vezes aparecem por aqui, para dar o ar da sua graça, para felicitar Gáia pela sua ininterrupta viagem para dentro da escuridão do universo.
Somos peixes num mar de tubarões. Bois num rio de piranhas. Corpos expostos num lamaçal de sanguessugas. Somos cobaias num laboratório conduzido por feras não-reflexivas.
Mas não acho que devamos baixar nossas cabeças, muito pelo contrário, foi justamente esse abaixar de cabeças e de calças que nos trouxe até aqui. Precisamos resgatar e abrir espaços para que as consciências reflexivas tenham mais desejos por este mundo do que estes parasitas não-reflexivos que o infestaram, do que estas ansias sem dono, cães-sem-dono, do que estas mulas sem cabeça.
Continuo afirmando que as coisas mais importantes nesse mundo não se compram com dinheiro. O amor de um filho, de um pai, a coragem, o cuidado de uma mãe, a dignidade, o caráter, o respeito de uma mulher, a confiança de um grupo, são constructos humanos que o dinheiro não pode comprar, que todos nós queremos, mas já nem sabemos como conquistá-los, pois somos ensinados dia e noite que tudo nesse mundo se compra com dinheiro. E nada importa mais do que o vil metal, do que gozo dos corpos, nada mais importa do que as programações, do que a passividade e o gozo a qualquer preço.
A grande mentira de que a imagem é tudo disseminou-se como erva daninha nesse mundo raso, a Caverna de Platão enfim alcançou o seu tempo. Constroem-se barrigas, corpos, sorrisos, impérios, vaginas, honoráveis bandidos, joelhos, rostos, culatras, políticos corruptos, celebridades, nas fábricas pútridas e fúnebres do capital.
Mas não devemos radicalizar, é preciso que reaprendamos a ler as entrelinhas do que está acontecendo em nosso mundo. Carregados a 300 kilometros por hora, o homem parou de pensar, já não consegue mais digerir o alimento da informação, e deixou sua vida para ser pensada pelos marketeiros de plantão, legisladores de plantão, políticos de plantão, juízes de plantão, pelas putas de plantão, pelos covardes de plantão. Deixou sua vida para ser pensada pelos personagens de tv´s, oráculos da modernidade, e pelos digníssimos apresentadores de plantão. O homúnculo deixou sua vida… deixou… transformou-se em matéria inerte, sem amor, sem desejos, sem esperança, sem coragem, sem sentido, sem rumo, sem siginficado, sem propósito.
O constructo que mais me repugna no constructo humano é a covardia, fruto do medo irracional, primitivo, é montado em cima desta covardia que os corruptores “sobem em suas montanhas para tentar enganar todo o mundo”. Ave Jodorowsky, in Holy Mountain!!
A.L.M.