eu gostaria de dizer uns versos mansos
enquanto o dragão feroz devora minha língua
e o tempo consome a meu templo
irmão do núcleo do sol eu sou
viro-me
e … l . e . . n . . . t . . . . a . . . . . m . . . . . . e . . . . . . . . n . . . . . . . . . . t . . . . . . . . . . . . e
vejo
um rastro
de fragmentos bóiando no espaço
por onde pasto
despedaço-me e despeço-me
sempre
gozando antes da hora da partida
de forma que urge um grito desesperado
e talvez para isso sirvam-me estas palavras
estes rudimentos de linguagem
símbolos
incapazes de dizer tudo o que sinto
a vida é o grande enigma
enquanto muitos cegos
só querem saber da esfinge
e por isso a ignoram
submersa dentro do templo
esquecem
o milagre improvável
que somos
e ínfimos os seus cantores
a cada dia encontro meu canto
noutros
me perco
para encontrar de novo
o mesmo canto que morrera mim
e vive nessoutros inda
em botão
inda
no avesso deles
renascidos
ânsia outrora minha
e agora ignorada
e descubro que não sou eu o outro
mas o outro é meu
palavras são inúteis para dizer disso
símbolos são inúteis para conceber isso
ouvir o batimento do coração
talvez seja
a única linguagem capaz
de explicar um pouco
as razões que permitiram
e ainda permitem
a existência
desse enigma
vida
implicada
evaporando-se
preservando-se
consubstanciando-se