Arquivo de junho, 2009

A Certeza

Publicado: 14/06/2009 em Sem categoria

 

De todos as idéias elaboradas pelo cérebro humano

parece-me que aquela que mais o faz confundir-se

é a que o leva a enveredar-se pelos descaminhos da certeza

 

Na tentativa vã de encontrar uma plataforma para agarrar-se

justo esse que vive a equilibrar-se sobre o abismo

que separa o animal do constructo humano

neste mundo onde as palavras e as coisas urgem ganhar um sentido

os homens insistem em segurar-se em suas "verdades"

 

aos gritos e escandalosos

 

Presos em suas cavernas de sombras

afirmam o encontro com as "respostas"

acalenta o seu cérebro dopaminérgico tê-las

 

Nessa penumbra interminável de ignorância

cuja chama vê-se incapaz de iluminar a noite nesses crânios

os homens vão submergindo em seus vícios

em suas vaidades

regurgitando sobre o seu próprio vômito

rindo desrazoados do sorriso em seus rostos pálidos

 

Uns acreditam serem deuses

outros cientístas de mármore

outros são reis e rainhas

outros super-heróis de gesso

 

O homem perde-se nessa brincadeira de existir

e acaba sucumbindo em suas microcertezas

e numa irresponsabilidade louca

titânica

da ignorância transmutando-se em força

provocando a morte de milhões de seres humanos

 

A certeza dança irresponsável

com uma venda nos olhos

e nas profundezas da vida

o animal suplanta a razão

um sorriso bizarro surge…

e um calafrio invade nossos corpos

 

Após bilhões de anos de evolução

30 mil anos de existência simbólica

há apenas 100 anos conseguimos voar

em 50 anos dar um salto até a lua

mas permanecemos absolutamente incompetentes

para implicamo-nos com a vida

com a vida humana

com este outro que nos autoriza

com a mensagem dos grandes mestres

com o amor

 

o que resta desta pobre certeza 

 

é o inevitável

é o que sempre fomos

 

etéreos conduzidos para a morte

 

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"Toda experiência de certeza é um fenômeno individual cego em relação ao ato cognitivo do outro"

(Maturana e Varela, 2007, p.22).
 

 

Poucas palavras… e tanto!!

Publicado: 07/06/2009 em Sem categoria

 

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem…

(Senhas: Adriana Calcanhoto)

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Impressiona-me como poucas palavras podem dizer tanto.

Uma verdade tão urgente que é difícil até corrompê-la.

Não é qualquer pulha que coloca estes símbolos na boca.

Não é qualquer pecador que comunga desta hóstia consagrada.

Mais fácil é dizer:

— Eu te amo!

— Deus lhe abençoe!

— Isso é uma calúnia!

— Tenho a consciência tranquila!

 

Num mundo onde as teorias e idéias nascem vendidas, onde há um encaixotamento de toda a intenção.

Constroem-se tratados, formatam-se conteúdos, estabelecem-se metas, para preencher páginas em branco.

A palavra serve aos amoladores de facas e aos homens da cobra.

O homem-da-cobra saiu da praça e subiu até a tribuna, e deu lugar aos pastores de ovelhas.

O homem de bem desceu do caráter e transformou-se em ovelha.

Foi ser coadjuvante no filme: O Silêncio das Ovelhas!

 

A fome continua a roer dentro dos corpos vazios.

Adoecendo toda a intenção.

Há não muito tempo, quando se usava a palavra, havia uma coisa chamada: respeito a palavra.

 

Avé Adrianapaixonada pela vida.

Comungamos da mesma sinfonia aprisionada em nossos corpos de desejos que não cessam.

Também sabemos transformá-los em aves vermelhas e gaviões.

Néctar são tuas palavras em meus ouvidos.

Fundem-se em minhas moléculas e ganham uma nova e mesma configuração.

Garoa que me sublima… orvalha e refresca….

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem…

(Senhas: Adriana Calcanhoto)

  

 

Se não reconhecemos nossas potencialidades

não nos organizamos para que ela aconteça

permitindo assim que a nossa energia seja sublimada

conduzindo para fora essa seiva-fonte que nunca cessa

 

A vida e a sua potência

apesar de suas ondas não cessarem nem mesmo com a morte

necessitam ser convertidas em outras vidas e formas inda no seu tempo

transubstanciando-se em zilhões de possibilidades antes do ocaso

 

Isso acontece justamente para que o organismo do ser não adoeça

e permita o fantástico encontro entre o cosmos

o milagre da vida

e o milagre da existência

 

Numa fusão mágica e titânica

onde bilhões sonharam e acreditaram nos seus sonhos ao longo de alguns milênios

construindo mil e uma razões para  a existência do universo